Quanto custa transformar a aprovação em diploma?

As instituições públicas de ensino superior de Manaus começam a abrir os editais para o ingresso no primeiro semestre de 2027, reacendendo o sonho de milhares de jovens do interior do Amazonas que desejam conquistar uma vaga na universidade. Para muitos, no entanto, a aprovação representa apenas o início de uma jornada marcada por desafios financeiros, saudade da família e dificuldades de adaptação que, em alguns casos, acabam interrompendo o projeto de concluir um curso superior.
O novoairãoense Luan Serrão conhece bem essa realidade. Aprovado no Processo Seletivo Contínuo (PSC), ele conseguiu ingressar no curso de Educação Física da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mas descobriu que permanecer na capital seria muito mais difícil do que passar no vestibular.
Além da mudança de cidade, a distância entre a moradia que conseguiu encontrar e o campus da universidade, no bairro Coroado, somada ao custo de vida e à falta de apoio financeiro, fizeram com que o sonho fosse interrompido logo no início.
“Fiquei um pouco mais de um mês estudando, porém, não me acostumei ao fato de morar muito longe da faculdade, não me acostumei com a rotina da cidade e a situação financeira também prejudicou, pois não consegui nenhuma bolsa por lá”, conta.
Voltar para Novo Airão foi uma das decisões mais difíceis da vida de Luan. No semestre seguinte, ele ainda tentou retomar o curso de Educação Física, mas novamente precisou desistir.
Apesar das frustrações, o sonho do ensino superior permanece vivo. Luan já se inscreveu no vestibular extra da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que ofertará cursos modulares em Novo Airão. Desta vez, ele disputará uma vaga em Administração, com a expectativa de estudar mais perto da família e reduzir os custos que inviabilizaram a primeira tentativa.
A dificuldade enfrentada por Luan também fez parte da história do novoairãoense Oscar Bezerra Moreira. Aprovado para Engenharia de Produção, ele sequer conseguiu iniciar as aulas. O curso era em tempo integral e exigia que ele se mudasse para Manaus. Sem recursos para aluguel, alimentação e transporte, Oscar decidiu adiar o sonho antes mesmo do primeiro dia de aula.
“A principal dificuldade mesmo foi não ter recurso pra me manter. No momento em que eu conversei com os familiares, eles não puderam ceder um local pra eu morar por conta que, também não tinham tantas condições de manter uma outra pessoa na família. Então, a falta de recursos foi o principal motivo de adiar esse sonho. Mesmo eu correndo atrás na prefeitura não consegui nenhum retorno”, contou.

Quem supera os obstáculos relata os perrengues
Nem todos desistem. Para quem consegue permanecer na universidade, a trajetória costuma ser marcada por adaptações e pelo acesso a programas de assistência estudantil. A estudante Anne Karolinne, de Itacoatiara, afirma que a permanência em Manaus só foi possível porque conseguiu combinar o apoio da família com bolsas oferecidas durante a graduação.
“Na minha primeira faculdade eu passei algumas dificuldades financeiras. Nos dois primeiros anos eu dependi totalmente da minha família, mas depois eu consegui uma bolsa (R$ 700), o que me ajudou durante o curso. Neste segundo curso eu consegui um estágio remunerado (R$ 1,5 mil aproximadamente) que então me ajudou bastante”, revela.
Mesmo assim, Anne continua contando com a ajuda da mãe, responsável pelo pagamento do aluguel. Ela destaca que outros benefícios oferecidos pela universidade fazem diferença no orçamento.
“O café da manhã é R$ 0,80; o almoço R$ 1,30 e o jantar R$ 1,40. Funciona de segunda a sábado e até nas férias”, elogia.
Para ela, a meia-passagem no transporte público e o restaurante universitário representam uma economia que permite direcionar parte da renda para outras despesas essenciais, como aluguel e material acadêmico.

A estudante de Comunicação Social da Ufam Larissa Gemaque, 21, também de Novo Airão, vive uma realidade diferente. Ela conta com o apoio financeiro da família, que possui residência em Manaus, mas afirma que os programas de assistência estudantil continuam sendo importantes para reduzir os gastos.
“Minha família tem casa em Manaus e sou bolsista (R$ 700) em um projeto da faculdade e tudo isso me ajuda a me sustentar em Manaus. Eu também uso transporte público, pago meia passagem, e faço minhas refeições em casa. Quando não consigo, eu uso o Restaurante Universitário”, contou Larissa.
Embora as histórias tenham desfechos diferentes, elas revelam um ponto em comum: para estudantes do interior, conquistar uma vaga na universidade é apenas parte do desafio. Permanecer na graduação depende de uma combinação de apoio familiar, renda e acesso às políticas de assistência estudantil.
Quanto custa para um estudante viver em Manaus?
Se entrar na universidade já é um desafio, permanecer nela pode custar quase um salário mínimo por mês para quem deixa o interior e passa a morar em Manaus. Aluguel, alimentação, transporte, material didático e despesas básicas fazem parte de uma conta que pesa no orçamento de estudantes e de suas famílias.
Em um levantamento feito pela reportagem, um universitário que mora sozinho precisa desembolsar cerca de R$ 1,4 mil por mês apenas com gastos essenciais. O valor pode variar conforme o bairro onde mora, a existência de auxílio estudantil e o apoio da família, mas mostra o tamanho do desafio enfrentado por quem precisa mudar de cidade para estudar.
Programas de assistência estudantil ajudam a reduzir parte dessas despesas, mas o acesso aos benefícios depende de critérios socioeconômicos, seleção por edital e disponibilidade orçamentária.
Estimativa de gastos mensais
- Alimentação: tomando café da manhã, almoço e jantar de segunda a sábado nos Restaurantes Universitários (RUs) da Ufam, o gasto mensal fica em torno de R$ 91. Considerando as refeições nos domingos e em dias sem acesso ao restaurante, esse custo pode chegar a aproximadamente R$ 191.
- Aluguel: uma quitinete simples nas proximidades da Ufam, no bairro Coroado, custa entre R$ 500 e R$ 600 por mês. Para esta estimativa, foi considerado o valor de R$ 600.
- Transporte: utilizando meia-passagem para o deslocamento diário até a universidade, o estudante desembolsa aproximadamente R$ 150 mensais.
Outras despesas: produtos de higiene, limpeza, vestuário, material acadêmico e lazer somam cerca de R$ 500. - Total estimado: R$ 1.441 por mês.
Universidades ampliam assistência e interiorização para reduzir o abandono
As principais instituições públicas de ensino superior do Amazonas afirmam que ampliar a oferta de cursos no interior e fortalecer os programas de assistência estudantil são as principais estratégias para reduzir a evasão e permitir que mais estudantes concluam a graduação.
UFAM
Além da oferta de cursos nos campi de Benjamin Constant, Coari, Humaitá, Itacoatiara e Parintins, e da implantação de uma unidade em São Gabriel da Cachoeira, a Ufam mantém programas de assistência estudantil para quem precisa se mudar para Manaus. Entre eles estão auxílio-moradia, auxílio acadêmico, auxílio calouro, Bolsa Permanência e vagas na Residência Universitária de Manaus (RUNI), destinada a estudantes sem moradia na capital. Atualmente, a universidade reúne cerca de 21 mil alunos em Manaus e pouco mais de 6 mil nos campi do interior.
UEA
Na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Política de Apoio e Assistência Estudantil (Paes) reúne ações voltadas à permanência dos estudantes em situação de vulnerabilidade. Entre os principais programas estão o Auxílio Permanência, as Casas do Estudante e os 11 Restaurantes Universitários (RUs) distribuídos entre a capital e o interior, que ajudam a reduzir despesas com moradia, alimentação, transporte e material didático.
A universidade também oferece acompanhamento por uma equipe multiprofissional, formada por assistentes sociais, psicólogos e pedagogos, entre outros profissionais. Com forte presença fora da capital, a UEA concentra a maior parte dos estudantes no interior do Amazonas: são 13.395 alunos nos municípios do interior e 9.167 em Manaus, reforçando a estratégia de ampliar o acesso ao ensino superior sem exigir que o estudante deixe sua cidade de origem.
- Manaus: 100 vagas;
- Parintins: 80 vagas;
- Tefé: 60 vagas;
- Tabatinga: 60 vagas;
- Itacoatiara: 60 vagas.
IFAM
O Instituto Federal do Amazonas (Ifam) também aposta na interiorização como estratégia para reduzir a evasão. Segundo a instituição, os índices de abandono são menores nos campi do interior do que nas unidades da capital. Assim como a Ufam e a UEA, o Ifam oferece alimentação estudantil e programas de bolsas para auxiliar na permanência dos alunos.
A moradia estudantil, no entanto, ainda é limitada e está disponível apenas para cursos específicos do Campus Zona Leste, voltados às áreas de produção rural e agroecologia.
Além das universidades, algumas prefeituras da Região Metropolitana de Manaus criaram políticas para reduzir os custos enfrentados pelos estudantes que precisam se deslocar diariamente até a capital. Manacapuru, Iranduba e Rio Preto da Eva, por exemplo, oferecem transporte gratuito aos moradores matriculados em instituições públicas e privadas de ensino superior em Manaus.
Permanecer é o maior desafio
As histórias de Luan, Oscar, Anne e Larissa mostram que o vestibular representa apenas a primeira etapa para milhares de jovens do interior do Amazonas. Permanecer na universidade depende de fatores que vão além do desempenho acadêmico, como renda, moradia, transporte e acesso às políticas de assistência estudantil.
Enquanto universidades e prefeituras ampliam programas de apoio e investem na interiorização do ensino superior, muitos estudantes ainda enfrentam uma realidade em que conquistar a vaga é apenas o começo da luta para chegar ao diploma.





