Por que comprar no Centro deixou de ser a primeira opção para muitos manauaras? Entenda

Durante décadas, quem precisava resolver qualquer assunto em Manaus inevitavelmente passava pelo Centro da cidade. Era lá que funcionavam bancos, repartições públicas, grandes lojas e parte da vida cultural da capital. Todos os dias, milhares de pessoas circulavam pela região, que concentrava boa parte da atividade econômica e administrativa do município.
Esse cenário, porém, mudou ao longo dos últimos anos. A expansão dos bairros, a chegada dos shoppings, o crescimento das compras pela internet, a saída de órgãos públicos e os impactos da pandemia de Covid-19 reduziram o fluxo de consumidores. Agora, comerciantes, especialistas e o poder público tentam devolver ao Centro o protagonismo que ele já teve.
Segundo levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus (CDL Manaus), o fluxo diário de pessoas, que chegou a cerca de 80 mil, caiu para aproximadamente 60 mil durante o período mais crítico dos últimos anos. Atualmente, a entidade estima que a circulação esteja em torno de 70 mil pessoas por dia e trabalha para recuperar o antigo patamar.
Um Centro que mudou com a cidade
O processo de transformação da região central começou antes mesmo da pandemia.
Conforme a publicação Manaus: história e arquitetura, de Otoni Mesquita, um dos fatores que contribuíram para a perda de movimento foi a retirada gradual das repartições públicas federais, estaduais e municipais que, até os anos 1990, atraíam milhares de pessoas diariamente. A diminuição das atividades ligadas ao porto e a redução da presença de agências bancárias também reduziram a circulação na região.
O esvaziamento também ocorreu no âmbito imobiliário e político. O arquiteto Roberto Moita observa que, ao longo dos últimos 30 anos, o Centro perdeu poder econômico, político e residencial.

“Primeiro foi embora o Executivo, depois o Legislativo e por último o Judiciário. Ao mesmo tempo, ocorreu esse processo de esvaziamento de moradia, na medida em que também não havia novos lançamentos imobiliários.”
A descentralização dos serviços públicos coincidiu com o fortalecimento do comércio nos bairros e a expansão dos shoppings centers, que passaram a oferecer estacionamento, climatização e maior comodidade aos consumidores. Nos últimos anos, o crescimento do comércio eletrônico acelerou ainda mais essa mudança de comportamento.
Os números mostram sinais de recuperação
Apesar das perdas, o comércio vê sinais de retomada. Segundo Ralph Assayag, presidente da CDL Manaus, há cerca de três anos o Centro sofreu um dos momentos mais difíceis da sua história recente.
Durante a pandemia de Covid-19, aproximadamente 20% das lojas encerraram as atividades, provocando a perda de cerca de 3 mil empregos na região.
Hoje, de acordo com o dirigente, o cenário começa a mudar. A CDL utiliza dados do monitoramento da bilhetagem eletrônica do transporte coletivo para acompanhar a movimentação diária de pessoas no Centro.
O levantamento aponta que o fluxo passou de aproximadamente 60 mil para 70 mil pessoas por dia. A meta, segundo Assayag, é voltar ao patamar de 80 mil. Essa recuperação também aparece nas pesquisas de intenção de compra.
Antes da pandemia, os shoppings concentravam cerca de 60% da preferência dos consumidores, enquanto o Centro registrava aproximadamente 30%. Os levantamentos mais recentes mostram o Centro com 40% da preferência, os shoppings com 50% e o comércio dos bairros com 10%.
Ralph Assayag – presidente da CDL Manaus
A voz da população
As mudanças também são percebidas por quem utiliza a região. Para a estudante de Farmácia Michelle Souza, de 34 anos, o Centro continua sendo a melhor opção quando o assunto é variedade e preço.

“Ainda prefiro fazer compras no Centro porque, na maioria das vezes, encontro preços melhores e maior variedade de produtos. Quando procuro algo específico, tenho mais opções para comparar. Muita coisa mudou: hoje existem shoppings e comércios em praticamente todos os bairros, então muitas pessoas não precisam mais ir ao Centro. Mesmo assim, continuo frequentando pela variedade e pelos preços. Acredito que a região perdeu movimento, tanto pelo crescimento do comércio nos bairros quanto pelo medo da falta de segurança. Investir mais em segurança, organização, limpeza e infraestrutura ajudaria a trazer os consumidores de volta.”
Já para a enfermeira Eliana Damasceno, a praticidade passou a pesar mais do que os preços encontrados na região.
“Meu tempo é curto, pois trabalho em um pronto-socorro. Ter que ir ao Centro da cidade no meu dia de folga é algo desmotivante, quando penso no calor e no risco de assaltos, prefiro comprar on-line. Voltar a fazer todas as compras no Centro é impossível. Além dos fatores citados, não tenho disponibilidade suficiente, mas há coisas que inevitavelmente precisamos resolver lá. A praticidade é o principal motivo, além da falta de estacionamento nos locais onde eu gostaria de ir. Algumas lojas fazem entrega em domicílio e isso facilita bastante.”

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Diagnóstico técnico: os fatores do esvaziamento
Na avaliação de especialistas e representantes do comércio, não existe uma única explicação para a redução do fluxo de consumidores. Entre os principais fatores estão:
Comércio e bairros: a expansão de opções comerciais descentralizadas reduziu a dependência do Centro, embora a região mantenha apelo popular relevante.
Segurança e vulnerabilidade: a presença de população em situação de rua e ocorrências pontuais em áreas específicas geraram sensação de vulnerabilidade. Ralf Assayag afirma que a atuação conjunta com a Prefeitura e as forças de segurança, incluindo a ampliação do efetivo da Polícia Militar de 30 para 100 policiais, o aumento de viaturas e motocicletas e o reforço da Guarda Municipal, já mostra impactos positivos na percepção de ordem pública.
Conforto urbano, clima e mobilidade: calor intenso, calçadas em condições precárias em trechos específicos, escassez de vagas de estacionamento e custo do transporte público influenciam a decisão de evitar o trajeto até o Centro.
Novos hábitos digitais: o avanço das compras pela internet e a entrega em domicílio substituíram parte das transações presenciais, sobretudo para consumidores com pouco tempo disponível.
Perspectivas de revitalização
O Centro de Manaus segue diante do desafio de se adaptar aos novos hábitos de consumo digital, ao mesmo tempo em que busca valorizar seu patrimônio histórico, arquitetônico e cultural para reconquistar a rotina dos manauaras.
Apesar dos desafios, especialistas e lideranças comerciais veem espaço para transformação.
Roberto Moita destaca que o Centro segue desempenhando papel relevante como polo comercial e destino turístico, com hotéis tradicionais, restaurantes e expansão de bares voltados ao público jovem. Para consolidar essa retomada, o arquiteto aponta como necessárias a melhoria da zeladoria urbana, a preservação do patrimônio e a atração de investimentos privados voltados à habitação, hotelaria e locação por temporada.
Ralph Assayag detalha que o diálogo com a administração municipal, com envolvimento de secretarias e projetos de requalificação urbana nas ruas Ferreira Pena, Tamaracá e entorno, prevê redesenhar calçadões em vias transitáveis, criar áreas de convivência e gastronomia e implementar equipamentos de apoio social, como albergues noturnos e casas de passagem.





