Peru e rabanada: você conhece a origem dos alimentos tradicionais do Natal?

A aproximação do Natal já transforma as prateleiras dos supermercados. Perus, chesters, pernis, tenders, panetones e chocotones ocupam espaços de destaque nas gôndolas e despertam a atenção das famílias que começam a planejar a ceia, uma das principais tradições gastronômicas do calendário brasileiro.
Por trás dos alimentos que reúnem as famílias, existem histórias curiosas, influências de diferentes países e adaptações que ajudaram a construir a tradição natalina no Brasil.
Um dos exemplos mais conhecidos é o peru. Apesar de associada às celebrações europeias, a ave tem origem nas Américas, especialmente no México. Foi levada para a Europa pelos colonizadores no século XVI e, com o tempo, ganhou espaço nas refeições comemorativas. Antes dele, outras aves, como gansos e pavões, eram servidas em banquetes europeus.
No Brasil, o peru se tornou um dos protagonistas da ceia, principalmente por seu tamanho e pela capacidade de alimentar várias pessoas. A ave passou a representar a fartura e a reunião familiar em torno da mesa.

Outra presença frequente nos supermercados é o chester, que guarda uma curiosidade no próprio nome. Ao contrário do que muita gente imagina, não se trata de uma espécie diferente de ave. É uma linhagem de frango selecionada para apresentar maior desenvolvimento de partes nobres, especialmente peito e coxas.
O nome Chester é uma marca registrada da Perdigão, e o produto chegou ao mercado brasileiro no final da década de 1970, como alternativa ao peru. Para enfrentar a popularização do Chester, a Sadia lançou o Supreme, linhagem de frango que também valoriza as partes nobres.
Perdigão e Sadia passaram, neste século, a formar um mesmo grupo empresarial, a BR Foods. O principal concorrente do grupo, a Seara, também lançou um frango para o mercado natalino, o Fiesta.

O pernil tem uma história mais ligada à tradição portuguesa. Retirado da parte traseira do porco, tornou-se uma das carnes assadas mais presentes nas celebrações familiares. No Brasil, ganhou diferentes formas de preparo, com temperos à base de alho, ervas, vinho e frutas. Por ser uma peça grande, também se tornou opção para famílias numerosas.
Já o tender é um produto suíno curado e defumado, geralmente preparado a partir do pernil desossado. Seu nome vem do inglês e significa macio. No Brasil, ficou conhecido pela apresentação com cortes na superfície, cravos-da-índia e coberturas adocicadas, muitas vezes acompanhadas de abacaxi e cerejas. A combinação de sabores salgados e doces ajudou a transformar o produto em item tradicional das festas de fim de ano.

Herança portuguesa e italiana à mesa
Entre os alimentos de forte influência europeia está o bacalhau. A tradição de consumir o peixe tem relação com os costumes religiosos católicos, que historicamente recomendavam evitar carnes em determinados períodos e dias do calendário cristão. Conservado por meio da salga e da secagem, o bacalhau tornou-se alternativa importante e ganhou espaço nas refeições portuguesas. Com a colonização, o hábito chegou ao Brasil.

O peixe aparece em diferentes receitas, geralmente acompanhado de batatas, cebolas, azeitonas e azeite. Em algumas famílias, é o principal prato da ceia, dividindo espaço com as carnes assadas.
Entre os doces, o destaque é o panetone, cuja origem está ligada à cidade de Milão, na Itália. A receita tradicional leva farinha, ovos, manteiga, frutas cristalizadas e uvas-passas. Sua história remonta a preparações antigas de pães especiais, embora existam diferentes versões sobre o surgimento da receita atual.

O alimento chegou ao Brasil principalmente por influência da imigração italiana. A partir da década de 1950, o empresário italiano Carlo Bauducco teve papel importante na popularização do produto no país. Desde então, o panetone passou a ser associado ao Natal e se transformou em um dos principais símbolos gastronômicos do período.
Outro item, o chocotone, surgiu como adaptação para quem não aprecia frutas cristalizadas e uvas-passas. Em vez desses ingredientes, a massa recebe gotas ou pedaços de chocolate. A versão conquistou o mercado brasileiro e abriu espaço para inúmeras variações, com recheios de brigadeiro, doce de leite e cremes de chocolate.

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Rabanada, farofa e salpicão também são tradição
A ceia brasileira não se resume a carnes assadas e pães doces. Outros pratos também conquistaram espaço nas mesas e carregam curiosidades sobre sua origem.
A rabanada tem forte influência portuguesa. Preparada com fatias de pão embebidas em leite, passadas em ovos e fritas, costuma ser finalizada com açúcar e canela. A receita é uma forma de aproveitar o pão e ganhou lugar especial nas comemorações natalinas.
A farofa é outro acompanhamento popular. Embora faça parte da alimentação cotidiana no Brasil, ganhou versões especiais para o Natal, com bacon, linguiça, ovos, frutas secas e castanhas. O arroz à grega, preparado com cenoura, ervilha, milho e pimentão, também se tornou presença frequente nas ceias.
O salpicão é uma salada fria geralmente preparada com frango desfiado, cenoura, milho, ervilha, maionese e batata palha. Sua popularidade nas festas está relacionada à possibilidade de combinar diferentes ingredientes em uma receita servida fria.

Entre acompanhamentos e aperitivos, nozes, castanhas, amêndoas e frutas secas também ganharam espaço. Esses alimentos estão associados às celebrações de inverno europeias e foram incorporados às tradições de fim de ano em diferentes países.
Identidade brasileira
Embora muitos dos alimentos tradicionais tenham origem europeia ou norte-americana, a ceia de Natal brasileira passou por adaptações e incorporou ingredientes regionais.
Na Região Norte, por exemplo, peixes como tambaqui e pirarucu podem dividir espaço com peru, pernil e outras carnes. Frutas amazônicas e sobremesas preparadas com ingredientes locais também dão características próprias às comemorações.
Essa mistura de influências mostra que não existe um único modelo de ceia natalina no Brasil. Cada região e cada família preservam receitas e costumes, acrescentando novos pratos ao cardápio.
Assim, enquanto os supermercados anunciam a chegada do Natal com as primeiras exposições de panetones, perus e chesters, as histórias desses alimentos ajudam a explicar como diferentes culturas contribuíram para construir uma das tradições mais conhecidas das festas de fim de ano: reunir familiares e amigos em torno de uma mesa.





