O que o público não vê: como nascem as alegorias de Parintins

Muito antes de as luzes do Bumbódromo se acenderem, artistas visuais trabalham nos galpões dos bois Caprichoso e Garantido para transformar pesquisa, criatividade e técnica nas alegorias que encantam o público. O processo, que começa meses antes do festival, reúne profissionais de diferentes áreas e mantém viva uma das maiores expressões culturais da Amazônia.
Há mais de 20 anos atuando no Boi Caprichoso, o artista visual e professor Glaedson Azevedo mostrou à Rede Onda Digital que conhece de perto essa rotina. Integrante de uma família tradicional do festival, ele divide com o pai e o irmão a responsabilidade pela confecção do boi de arena, o item 10 do Caprichoso.

Além da estrutura, Azevedo participa da pintura, da produção das matrizes e da organização da apresentação do boi durante o espetáculo.
“Pensamos a confecção do boi em três pilares: segurança, leveza e estética”, explica.

Segundo ele, o trabalho começa entre novembro e dezembro, quando são realizadas pesquisas e elaborados os primeiros projetos. A partir daí, os artistas têm cerca de três meses para transformar os desenhos em estruturas de grandes proporções.
“É um tempo curto para essa produção. Por isso, as equipes precisam ser organizadas e ter experiência para cumprir os prazos”, afirma.
Outro desafio é a logística. Muitos materiais utilizados nas alegorias não são encontrados em Parintins e precisam ser adquiridos em outras cidades, exigindo planejamento para evitar atrasos.
Para Azevedo, uma das principais evoluções do festival foi a aproximação entre o conhecimento acadêmico e o saber popular dos artistas locais.
“O conhecimento acadêmico e o conhecimento popular não são mais extremos. Hoje eles dialogam e fortalecem o espetáculo”, destaca.
Professor de Arte, ele afirma que as pesquisas sobre cultura amazônica, história e ancestralidade ajudam a construir apresentações cada vez mais consistentes.
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Limites dentro dos galpões
O presidente da Associação dos Artistas Plásticos de Parintins (AAPP), Glaucivan Silva, explica que a criação das alegorias envolve uma ampla equipe formada por pesquisadores, historiadores, ilustradores e artistas responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos apresentados na arena.
Segundo ele, quando os trabalhos chegam aos galpões, grande parte do conceito artístico já está definida, restando aos artistas executar as propostas elaboradas pelas comissões de arte dos bois.
“Os artistas praticamente executam uma ideia que já vem pronta. A participação na criação ainda é muito pequena”, afirma.

Para Glaucivan, ampliar esse espaço fortaleceria ainda mais o espetáculo.
“O artista plástico também tem criatividade, também pesquisa e pode contribuir muito mais com a construção das alegorias”, defende.
Depois do festival, muitos profissionais precisam buscar oportunidades em outras regiões do país. De acordo com Azevedo, artistas de Parintins atuam em carnavais, festivais folclóricos e outros eventos culturais, levando a experiência adquirida nos galpões.
Ele acrescenta que esses profissionais também participam da produção de decorações temáticas, como Natal e Páscoa, o que ajuda a manter a atividade artística durante o restante do ano.
Reconhecimento ainda é desafio
Os dois artistas concordam que, apesar da projeção alcançada pelo Festival de Parintins, ainda há desafios relacionados à valorização dos prossifionais que constroem o espetáculo.
Para Azevedo, são necessárias políticas públicas que fortaleçam a profissão e garantam mais oportunidades além do período do festival. Já Glaucivan considera importante ampliar o reconhecimento do papel dos artistas dentro da cadeia produtiva da festa.
Mesmo diante dos desafios, ambos acreditam que novas gerações estão sendo formadas para dar continuidade à tradição artística da ilha da magia.
Enquanto o público acompanha o espetáculo na arena, milhares de horas de pesquisa, planejamento e trabalho manual permanecem nos bastidores. É desse esforço coletivo que nascem as alegorias responsáveis por transformar o Festival de Parintins em um dos maiores espetáculos culturais do Brasil.





