“Fui infectada com HIV de propósito”: técnica de enfermagem relata diagnóstico e luta contra o estigma

“Vivo com HIV há 19 anos. Quando eu tinha 17, meu namorado na época sabia do diagnóstico e me infectou de propósito.” O relato é da técnica de enfermagem e criadora de conteúdo Angélica Torquato, de 36 anos, moradora de Guarulhos (SP).
Após comentar uma publicação da Onda Digital nas redes sociais, ela decidiu compartilhar sua trajetória, marcada pelo diagnóstico precoce, desafios familiares e, mais recentemente, pelo ativismo em defesa das pessoas que vivem com o vírus.

Da descoberta ao recomeço
Segundo Angélica, ela conheceu o então namorado aos 16 anos, por meio do Orkut. Após pouco mais de um ano de relacionamento, ele a pediu em casamento e revelou que vivia com Aids. De acordo com ela, foi nesse momento que também disse acreditar que ela já havia sido infectada e afirmou ter feito isso de forma intencional para que ela permanecesse ao seu lado.
Na época, Angélica amamentava a filha mais velha, que também foi diagnosticada com HIV. Ela conta que decidiu continuar o relacionamento por acreditar que não seria aceita por outra pessoa. O casamento, porém, não aconteceu. Uma semana antes da cerimônia, o noivo sofreu um acidente, perdeu a memória e morreu pouco tempo depois. Ela afirma que chegou a ingressar com uma ação judicial, mas o processo não teve continuidade em razão do falecimento dele.
Além do próprio tratamento, Angélica precisou acompanhar a filha, que enfrentou complicações de saúde e dificuldades psicológicas relacionadas ao diagnóstico. Segundo ela, a jovem teve problemas para aderir ao tratamento durante a adolescência.
“Minha filha ficava muito doente por causa do vírus, e quando ela completou 12 anos eu e os médicos revelamos a ela o seu diagnóstico. Tudo isso causou danos psicológicos nela, ela tentou o suicídio algumas vezes, começou a usar drogas e a beber, e até hoje tem dificuldades com a adesão ao tratamento”, disse Angélica.
A exposição nas redes virou ferramenta de informação
Apesar do impacto do diagnóstico, Angélica diz que nunca escondeu da família que vivia com HIV. Ela começou a falar publicamente sobre o assunto após denunciar a falta de infectologistas na rede pública de Guarulhos, situação que, segundo ela, comprometeu o atendimento dos pacientes.
Depois de conceder entrevistas sobre o problema, passou a utilizar as redes sociais para compartilhar informações sobre HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, além de relatar sua experiência pessoal na tentativa de reduzir o preconceito.
“Hoje uso minhas redes sociais para falar sobre Aids e outras ISTs, levar informação para as pessoas usando o meu conhecimento e a minha história de vida para quebrar os estigmas e preconceitos que ainda existem sobre o HIV”, afirma.
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Casos de HIV apresentam queda no Amazonas
Dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP) mostram que o número de novos diagnósticos de HIV no estado caiu de 3.018, em 2024, para 2.908, em 2025.
A maior parte dos casos ocorre entre homens de 20 a 39 anos. Em 2025, os registros entre homens homossexuais (815) superaram os de homens heterossexuais (788). Já a transmissão de mãe para filho permanece estável, segundo a fundação.
Os tratamentos também contribuíram para reduzir a mortalidade. De acordo com o Ministério da Saúde, o Amazonas registrou queda de 310 para 281 mortes por aids entre 2023 e 2024, redução de 9,35%. Em todo o país, a diminuição foi de 13%, atingindo o menor número de óbitos pela doença em cerca de 30 anos.
O que é a doença?
O HIV é o vírus que ataca o sistema imunológico. Sem tratamento, a infecção pode evoluir para a Aids, estágio mais avançado da doença. O infectologista Noaldo Lucena ressalta que é importante diferenciar quem vive com HIV de quem já desenvolveu a Aids.
“É importante distinguir a pessoa vivendo com o vírus do HIV da pessoa com Aids. No início, na grande maioria dos casos, a pessoa com HIV não apresenta nenhum sintoma. Até chegar à fase da doença, da Aids, pode-se levar de 5 a 10 anos, dependendo das condições de vida da pessoa.”

Ele continua: “A doença age destruindo o sistema imunológico da pessoa infectada, que acaba morrendo em decorrência das doenças causadas por bactérias, fungos ou outras causas, e não pelo vírus HIV”.
O especialista também reforça a importância da prevenção, da testagem e do acesso à informação para reduzir o preconceito.
“É importante falar sobre a doença, divulgar, quanto mais informação melhor. Falar de prevenção para infecções sexualmente transmissíveis, vacinação e exames periódicos são também ferramentas primordiais. Só assim podemos reduzir o estigma da doença. As pessoas ainda pensam que é uma doença de uma orientação sexual específica, e não é verdade. A maioria dos contaminados no mundo são os heterossexuais. A doença não é mais uma sentença de morte, pois hoje temos tratamentos que são muito efetivos.”





