Estudo liga desemprego a desmatamento na Amazônia

Um estudo do pesquisador Salo Coslovsky, intitulado “Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira”, aponta que a falta de emprego e renda entre os moradores da Amazônia contribui para o apoio a iniciativas de desenvolvimento econômico associadas a custos ambientais, incluindo o desmatamento.
Segundo o levantamento, os habitantes da região convivem com indicadores socioeconômicos inferiores à média nacional, o que cria um cenário propício à priorização de pautas econômicas em detrimento da conservação ambiental.
“As 28 milhões de pessoas que moram na região continuam a conviver com indicadores socioeconômicos notavelmente inferiores à média nacional (Santos et al. 2025a). Em 2021, o PIB real per capita da Amazônia Legal era de R$ 32 mil, quase um terço abaixo dos R$ 44 mil registrados no restante do Brasil. Essa fragilidade econômica está intimamente ligada à escassez de bons empregos”, diz trecho do estudo.
Indicadores sociais abaixo da média nacional
A pesquisa mostra que, em 2019, a taxa de ocupação na região era de 51%, contra 55% no restante do país. Entre os ocupados, 58% dos trabalhadores da Amazônia Legal estavam na informalidade, ante 38% nas demais regiões. O rendimento domiciliar per capita médio era de R$ 654 na Amazônia Legal, contra R$ 1.074 no restante do Brasil.
No mesmo período, 5% das pessoas em idade ativa da região, o equivalente a 1,1 milhão de pessoas, tinham desistido de procurar emprego, índice mais que o dobro dos 2% observados nas demais regiões do país. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 57% não tinham nenhuma ocupação, e entre os de 25 a 29 anos, esse percentual era de 40%.
O estudo relaciona essa fragilidade econômica a outros indicadores sociais. Em 2024, 36% da população da Amazônia Legal estava em situação de pobreza, contra 21% no restante do país. A expectativa de vida na região, de 74 anos em 2019, era 2,6 anos menor que a média nacional.
Descompasso entre agenda ambiental e prioridades locais
O levantamento identifica um descompasso entre as prioridades da população amazônica e a agenda ambiental. Uma pesquisa da Fundação Amazônia Sustentável, realizada em 2022 com mais de 2.800 pessoas nas capitais dos nove estados da região, mostrou que 89% concordam que conservar a floresta faz bem para a qualidade de vida, e 85% concordam que a conservação da Amazônia deveria fazer parte do plano de governo dos candidatos à presidência.
Apesar disso, quando solicitados a atribuir notas aos temas mais importantes no debate político, os entrevistados colocaram o meio ambiente em sétimo lugar, atrás de saúde, educação, segurança, corrupção, emprego e renda.
A pesquisa também cita 18 grupos organizados pelo Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, reunindo quase 150 moradores das capitais da região. Segundo o levantamento, nenhum dos participantes mencionou espontaneamente a questão ambiental ao refletir sobre sua condição e os problemas do cotidiano, e a preocupação mais recorrente era com emprego e inflação.
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Reflexo nas urnas
Conforme os resultados apresentados no documento, essa priorização de temas econômicos se reflete no comportamento eleitoral da região. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, o desmatamento da Amazônia cresceu de 28,5 mil km² registrados no quadriênio entre 2015 e 2018 para 45,6 mil km² durante seu governo.
Ainda assim, segundo dados citados no estudo, Bolsonaro obteve entre 65% e 75% dos votos em Rondônia, Acre, Mato Grosso e Roraima na disputa pela reeleição, além de vencer no Amapá por margem apertada.
O levantamento também cita dados da Iniciativa Farol Verde, que mede o Índice de Convergência Ambiental de deputados federais. Segundo o estudo, em outubro de 2024 a convergência ambiental média da Câmara dos Deputados era de 29%, enquanto a bancada da Região Norte apresentava índice de 22%, o segundo mais baixo do país.
No estudo, o empresário Denis Minev, CEO da Bemol e enviado especial da COP-30 ao setor privado da Amazônia, é citado ao afirmar que a hostilidade crescente em relação ao meio ambiente não é uma escolha, mas um efeito colateral da busca por prosperidade.
Rematamento produtivo como alternativa proposta
Diante desse cenário, a pesquisa propõe o conceito de rematamento produtivo, que consiste na conversão de áreas já desmatadas e pastagens degradadas em sistemas produtivos baseados em espécies perenes. Segundo os autores, essa estratégia teria como principal métrica de sucesso a geração de emprego e renda, e não apenas a extensão de área recuperada.
O levantamento estima que empreendimentos sediados na Amazônia já faturam US$ 7,2 bilhões por ano com produtos ligados a esse tipo de atividade, valor que representa 3% de um mercado total estimado em US$ 230 bilhões.
Acesse a íntegra do estudo:





