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Como exposição excessiva nas redes sociais afeta pessoas com Síndrome de Down

Últimas polêmicas envolvendo Patixa Teló reacendem debate sobre limites na relação de neurodivergentes com a fama na internet
05/03/26 às 08:43h
Como exposição excessiva nas redes sociais afeta pessoas com Síndrome de Down

(Foto: Montagem)

Nos últimos meses, a influenciadora Patixa Teló se tornou um fenômeno nas redes sociais. Com mais de 1,8 milhão de seguidores no Instagram, ela acumulou participações em reality shows, campanhas publicitárias para Netflix, Globo e SBT, e conquistou o público com seu humor espontâneo.

Mas o mesmo brilho dos holofotes também expôs episódios preocupantes: confusões em aeroportos, agressões verbais registradas em vídeo, pessoas filmando sem permissão dentro de banheiros e uma discussão pública sobre sua própria vulnerabilidade.

O caso de Patixa, que é portadora de Síndrome de Down, reacendeu um debate necessário: até que ponto a exposição digital é benéfica para pessoas neurodivergentes e a partir de que ponto ela se torna prejudicial?

À Rede Onda Digital, a psicóloga Julyanne Garcez Ferreira explica que o sucesso e a visibilidade podem, sim, ser positivos e inclusivos, desde que venham acompanhados de uma estrutura de apoio adequada.

“Quando uma pessoa neurodivergente se torna uma figura pública, o suporte precisa ser contínuo e multidisciplinar. Isso inclui acompanhamento psicológico, educação digital, orientação sobre os limites de exposição e a presença ativa da família na gestão da imagem pública”, argumenta.

Julyanne Garcez Ferreira, psicóloga graduada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com mestrado em Psicologia e ênfase em Saúde. Especialista em Avaliação Psicológica, Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia (Foto: Arquivo pessoal)

Sem essa estrutura, a fama pode se tornar um fator de risco. “A verdadeira inclusão não é colocar alguém sob os holofotes, é garantir que, mesmo sob essa luz, essa pessoa continue protegida, respeitada e emocionalmente segura”, afirma a psicóloga.

Importância da rede de apoio

Um dos pontos centrais do debate é a autonomia. Pessoas com síndrome de Down têm capacidade de decisão, mas o discernimento social pode variar conforme o nível de suporte e as experiências vividas. Em ambientes digitais marcados por interesses financeiros, exposição constante e manipulações, o papel da família se torna essencial.

“Mediar não é controlar, é proteger. É ajudar a interpretar situações, estabelecer limites e evitar constrangimentos ou exploração. A autonomia não significa ausência de suporte. Pelo contrário, quanto maior a vulnerabilidade social, maior deve ser a rede de proteção”, destaca Julyanne.

Exposição como espetáculo

A viralização de vídeos constrangedores e a abordagem invasiva de estranhos nas ruas são exemplos de como a exposição pode ultrapassar limites saudáveis. O influenciador Carlinhos Maia, que acompanhou de perto a ascensão de Patixa, criticou a forma como parte do público passou a tratá-la. “Ela se tornou um “animal” para as pessoas. As pessoas não perguntavam mais se podiam filmar ou não. Filmaram ela dentro de um banheiro, filmaram ela sacando dinheiro”, lamentou em entrevista recente.

Carlinhos Maia e Patixa Teló (Foto: Reprodução / Instagram)

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Para a psicóloga, essa espetacularização tem consequências. “Quando há invasão constante, pessoas filmando sem consentimento, pressão nas ruas e estímulos excessivos, isso pode gerar sobrecarga emocional e reações impulsivas. Qualquer ser humano, quando ultrapassa seu limite emocional, pode reagir de forma inadequada. Em pessoas com maior vulnerabilidade social, esse limite pode ser atingido mais rapidamente se não houver mediação adequada”, explica.

O risco de tratar a pessoa como entretenimento

A linha entre valorizar e explorar é tênue. “Quando a exposição vira espetáculo, o risco é que a pessoa deixe de ser sujeito e passe a ser tratada como entretenimento. E isso é um perigo”, alerta a especialista.

A exposição intensa nas redes pode gerar ansiedade, estresse e sobrecarga emocional em qualquer pessoa. No caso de alguém com síndrome de Down, dependendo do nível de funcionamento cognitivo e das habilidades sociais desenvolvidas, pode haver maior dificuldade para interpretar intenções, lidar com ironias, provocações e até assédio.

O que diz o MPAM

Em meio à repercussão, o Ministério Público do Amazonas (MPAM) chegou a ser questionado sobre um possível acolhimento institucional de Patixa. O órgão negou qualquer medida nesse sentido e reforçou que processos envolvendo pessoas em situação de vulnerabilidade tramitam sob sigilo, com o objetivo de proteger direitos e garantir dignidade e autonomia.

(Foto: Divulgação / MPAM)

O caso de Patixa Teló escancara uma questão maior: a sociedade e o mercado digital ainda não aprenderam a lidar com a fama de pessoas neurodivergentes. Enquanto isso, cabe à rede de apoio garantir que a visibilidade não se transforme em violência.

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