Eles fazem parte da rotina de Manaus, mas quase ninguém percebe

Manaus acorda, circula, viaja, consome e segue a rotina. Por trás desse funcionamento, porém, existe uma parcela de trabalhadores que quase sempre passa despercebida. São pessoas que carregam malas e mercadorias nos portos, recolhem o lixo das ruas e trabalham nos cemitérios, em atividades essenciais para a cidade, mas que ainda enfrentam falta de reconhecimento, preconceito e condições difíceis.
Carregadores enfrentam calor e falta de estrutura
Nos portos de Manaus, os carregadores convivem diariamente com esforço físico, calor e problemas de infraestrutura. Durante a estiagem, quando o nível dos rios baixa, a distância entre as embarcações e os locais onde os veículos conseguem chegar aumenta, tornando o trabalho ainda mais pesado.
Manuel Sebastião, que atua há cerca de dez anos como carregador, afirma que a dificuldade aumenta quando a estrutura do porto não acompanha as necessidades dos trabalhadores. Para quem vive do carregamento, o valor recebido por cada serviço nem sempre acompanha o esforço necessário.
“Tem que comer bastante mocotó para ficar forte”, brinca Manuel, antes de voltar a falar sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia. A brincadeira sobre a necessidade de força para enfrentar a rotina esconde uma realidade de desgaste físico.
Sol, rampas e despesas pagas do próprio bolso
Jomário Marques também trabalha como carregador e afirma que o sol está entre os principais obstáculos da profissão. Com a estiagem, segundo ele, as condições ficam ainda mais difíceis.
“Uma das principais dificuldades que nós enfrentamos no nosso dia a dia é o sol. Cansativo, o sol mata muita gente, desgasta”, afirma.
O problema não está apenas no calor. A estrutura física do porto também interfere diretamente no trabalho. Para Jomário, um projeto que aproximasse os veículos das embarcações poderia reduzir o esforço dos trabalhadores.
“Agora, como está secando, vai ficar mais difícil ainda para a gente trabalhar, porque isso é rampa. Se tivesse um projeto para ajudar a trabalhar, para os carros entrarem e ficarem mais próximos, seria muito bom”, explica.
Além do desgaste físico, há custos que, segundo ele, acabam recaindo sobre os próprios trabalhadores.
“Eles só veem o lado que a gente ganha dinheiro, mas não veem as dificuldades que a gente passa. A gente tem que tirar as coisas do nosso próprio bolso, alimento, água, banheiro, tudo é pago”, relata.
Jomário afirma ainda que até para trabalhar na balsa há cobrança. A percepção de que o carregador exerce uma atividade simples e lucrativa, portanto, contrasta com uma rotina marcada por despesas, esforço e ausência de benefícios.
O preconceito também pesa
Além das condições de trabalho, os carregadores enfrentam outro obstáculo, o estigma associado à profissão. Jomário conta que alguns trabalhadores são vistos como pessoas sem ocupação fixa ou até associados à criminalidade.
Ederjander Lira, outro carregador entrevistado, também relata situações de preconceito: “É um trabalho que não é tão valorizado pela população. Tem gente que vê o carregador como usuário do beiral, que não é digno de pegar uma mala, pegar uma encomenda e deixar no barco”.
Mas, para ele, carregar uma mala também envolve responsabilidade. “No momento que tu pega uma mala ou qualquer tipo de objeto de uma pessoa, é para entregar no seu destino. E isso eu levo a sério”, afirma.
O trabalhor acredita que a organização poderia ajudar a mudar a percepção da população sobre a profissão.
“Que a gente tivesse nossa associação, com nossas fardas, tudo direitinho. Eu acho que isso ia fazer a população enxergar a gente com mais valor um pouco.”
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Quem limpa a cidade também quer ser visto
A invisibilidade não está apenas nos portos. Nas ruas de Manaus, garis trabalham diariamente para retirar aquilo que a população descarta e manter os espaços públicos limpos.


Tânia Maria Martins de França, de 54 anos, trabalha como gari em Manaus. A rotina começa cedo e envolve esforço físico, exposição ao sol e à chuva, além do risco de acidentes com materiais descartados de maneira inadequada.
Para Tânia, entretanto, uma das partes mais difíceis da profissão não está apenas no esforço físico, mas na maneira como o trabalhador é tratado.
“Muitas vezes, o mais difícil não é somente o esforço físico, mas também a falta de reconhecimento, a falta de empatia com nós trabalhadores. Por trás do uniforme existe uma pessoa, uma mãe, uma filha, uma esposa, alguém que tem uma família e que está ali trabalhando honestamente”, relata.
O trabalho, segundo ela, só costuma ser percebido quando deixa de ser realizado. “Muitas vezes as pessoas só percebem a importância do gari quando a limpeza deixa de ser feita.”
Entre o silêncio dos túmulos e o peso do trabalho
Nos cemitérios, a invisibilidade assume outra dimensão. Enquanto famílias se despedem de pessoas queridas, coveiros e agentes de exumação permanecem nos bastidores, realizando uma tarefa necessária em um dos momentos mais delicados da vida.
Jorge Gomes de Almeida trabalha há mais de 20 anos em cemitérios de Manaus. Ao longo da carreira, acompanhou mudanças na profissão. No início, chegava às 4h da manhã para cavar sepulturas. Com a falta de espaço nos cemitérios, as gavetas verticais passaram a fazer parte da rotina.
Apesar das mudanças, Jorge afirma que o reconhecimento da categoria diminuiu, principalmente depois da pandemia de Covid-19, quando Manaus teve um colapso de casos e mortes.
“Nós éramos mais valorizados quando chegou a época do Covid. De lá pra cá esqueceram da gente”, conta.
Além do trabalho pesado, os profissionais também enfrentam situações de preconceito e incompreensão por parte de algumas famílias. “Quando a gente termina de fazer o serviço, claro, tudo higienizado coo deve ser, às vezes tentamos cumprimentar as famílias e alguns deles viram as costas pra gente”.
Fábio Ramos Alves soma 21 anos na profissão e conhece outro lado desse trabalho. Sob o sol forte de Manaus, uma equipe pode realizar 15 ou 16 procedimentos em um único dia.
Além do desgaste físico, ele aponta problemas de estrutura para alimentação, descanso e banho e afirma que, em algumas situações, ferramentas precisam ser compradas pelos próprios trabalhadores.
O preconceito aparece também em situações mais delicadas. Fábio conta que alguns familiares chegam a acusar os coveiros de roubar objetos deixados nos túmulos, como coroas de flores. Para ele, episódios como esse reforçam a sensação de discriminação enfrentada pela categoria.
Apesar disso, os profissionais permanecem na atividade. A principal reivindicação, resume, é simples: melhores condições de trabalho.
São profissionais que quase sempre aparecem apenas no momento em que uma família precisa deles. Depois que o cemitério se esvazia e o silêncio volta a ocupar os corredores, são eles que permanecem.
Por que trabalhos essenciais se tornam invisíveis?
Para o antropólogo e cientista político Raimundo Nonato Pereira da Silva, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pesquisador do ECOPeC, a desvalorização dessas profissões não acontece por acaso.
Segundo ele, a sociedade brasileira construiu historicamente uma hierarquia entre tipos de trabalho, atribuindo maior status às atividades associadas ao conhecimento acadêmico e menor valor às tarefas manuais.

O pesquisador afirma que expressões historicamente utilizadas para classificar trabalhadores como “braçais” ajudam a revelar uma desvalorização social dessas atividades.
“Olhar os trabalhadores, que um dia foram chamados de ‘braçais’, lixeiro, coveiro, estivadores, dentre outros, revela o desprezo e a estupidez humana para com o trabalho. Todo trabalho é um capital humano independente da sua complexidade”, explica.
A construção histórica dessa hierarquia também tem relação, segundo o professor, com a valorização de títulos acadêmicos e posições sociais. Essa lógica contribuiu para reforçar uma cultura de hierarquia, dominação e segregação.
“O não reconhecimento social pelo trabalho realizado, seja por quem for, gera na alma humana um vazio que a leva a se sentir uma coisa e não uma pessoa”, afirma.
O caminho contrário, segundo ele, também é possível: quando o trabalhador percebe que sua atividade é valorizada, cresce o sentimento de pertencimento e de compromisso com aquilo que faz.
Uma cidade não funciona sozinha
Carregadores, garis e coveiros exercem atividades completamente diferentes. Ainda assim, os relatos revelam uma experiência parecida: são trabalhadores que fazem parte da rotina de Manaus, mas nem sempre são enxergados como parte dela.
No porto, o carregador ajuda uma família a embarcar com as malas ou uma mercadoria a chegar ao barco. Na rua, o gari recolhe o lixo que alguém deixou para trás. No cemitério, o coveiro prepara o espaço onde uma família vai se despedir de alguém.
São tarefas que precisam ser feitas, independentemente de sol, chuva, estiagem, cansaço ou do olhar de quem passa.
Os entrevistados não informaram salários fixos ou remunerações mensais. Entre os carregadores, os relatos apontam valores de cerca de R$ 5 a R$ 10 por carregamento. Mais do que a remuneração, porém, os depoimentos expõem a busca por estrutura, segurança, respeito e reconhecimento.
Tânia resume a relação entre o trabalho desses profissionais e a responsabilidade de toda a sociedade: “Antes de existir uma rua limpa, existe alguém trabalhando para deixar daquele jeito.”
Talvez essa seja a melhor definição para essas profissões. Antes de uma cidade funcionar, existe alguém fazendo o trabalho que quase ninguém vê.
Em Manaus, eles não estão à margem do funcionamento da cidade. Eles são parte dele.





