Cocaína rivaliza com grandes commodities e fortalece facções na Amazônia

A cocaína consolidou-se como uma das principais economias ilícitas da Amazônia Legal. Em 2024, somente a droga apreendida pelas forças de segurança nos nove estados da região movimentou o equivalente a US$ 703,7 milhões, ocupando a sexta posição entre as commodities mais valiosas da Amazônia, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública obtido pelo jornal O Globo.
O valor supera produtos tradicionais da economia regional, como ouro, animais vivos e produtos oleaginosos, ficando atrás apenas de setores como o complexo da soja, cereais e carnes.
Para João Victor Lima, Mestre em Segurança Publica pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), a posição geográfica do Amazonas explica parte desse protagonismo no narcotráfico internacional.
“O Amazonas ocupa uma posição geográfica extremamente estratégica. O estado faz fronteira com três países produtores ou grandes corredores de cocaína, Colômbia, Peru e Venezuela, e possui uma das maiores malhas hidrográficas do mundo. Os rios funcionam como verdadeiras rodovias naturais, permitindo o transporte de grandes cargas com menor risco de fiscalização em comparação às rodovias”, afirmou.
Segundo ele, a extensa área territorial, associada à baixa presença estatal em diversas regiões, transforma o estado em um corredor logístico para o tráfico internacional de drogas.
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Facções operam como empresas criminosas
O estudo aponta que pelo menos 17 facções ligadas ao narcotráfico atuam na Amazônia, com destaque para o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que disputam territórios e rotas de escoamento da droga.
Para João Victor, essas organizações passaram a operar de forma estruturada, com divisão de funções, hierarquia, planejamento financeiro, inteligência, logística e mecanismos internos de resolução de conflitos.
Na Amazônia, segundo ele, as facções controlam toda a cadeia produtiva do narcotráfico, da negociação nas fronteiras ao transporte fluvial, armazenamento e distribuição para outras regiões do país e do exterior.
“Também utilizam tecnologia, comunicação criptografada e redes de colaboradores espalhadas por diversas localidades, tornando suas operações cada vez mais sofisticadas”, ressaltou.
O especialista acrescenta que essas organizações utilizam atividades aparentemente legais para lavagem de dinheiro, incluindo comércio, transporte, postos de combustíveis, garimpo ilegal e exploração madeireira.
Dependência econômica e vulnerabilidade social
A pesquisa indica que a expansão do narcotráfico na Amazônia está associada às fragilidades socioeconômicas de diversos municípios da região.
João Victor afirma que, em áreas com presença reduzida do Estado, o crime organizado ocupa espaços institucionais e econômicos.
“Ele gera renda, oferece empregos ilegais, financia pequenas atividades econômicas e, em alguns casos, até presta auxílio financeiro a moradores. Muitas famílias acabam vendo o narcotráfico como uma das poucas oportunidades de geração de renda disponível”, disse.
Segundo o especialista, essa relação cria dependência econômica e fortalece a influência das facções sobre as comunidades locais, dificultando o trabalho das autoridades.
Controle territorial e governança criminosa
O relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a Amazônia atravessa um processo de “governança criminal”, no qual grupos criminosos exercem funções tradicionalmente atribuídas ao Estado.
Dos 772 municípios da Amazônia Legal, 170 estão sob extrema exposição ao crime organizado, afetando aproximadamente 23% da população da região.
João Victor avalia que o fortalecimento econômico proporcionado pelo narcotráfico amplia a capacidade de atuação das facções para além do comércio de drogas.
“À medida que o narcotráfico movimenta bilhões de reais, as facções deixam de atuar apenas como grupos voltados ao comércio de drogas e passam a exercer controle territorial. Elas disputam rotas, impõem regras às comunidades, recrutam jovens e controlam atividades econômicas”, afirmou.
Em algumas localidades, esses grupos chegam a mediar conflitos e estabelecer normas próprias, recorrendo à violência como mecanismo de imposição de poder.
“Esse fortalecimento econômico amplia significativamente sua capacidade de corrupção, aquisição de armamentos e expansão territorial”, destacou.
Combate exige estratégia integrada
João Victor avalia que o enfrentamento do problema depende da integração entre políticas de segurança, desenvolvimento regional e inclusão social.
“O principal desafio é que estamos diante de um problema que não é apenas policial. Trata-se de uma questão que envolve segurança pública, desenvolvimento regional, integração internacional e políticas sociais”, explicou.
Ele destaca que a dimensão territorial da Amazônia, a predominância do transporte fluvial e as grandes distâncias elevam os custos e a complexidade das operações de combate ao crime organizado. As organizações criminosas atuam de forma transnacional, enquanto as instituições públicas enfrentam limitações burocráticas e territoriais.
“Combater o narcotráfico na Amazônia exige uma estratégia integrada que combine repressão qualificada, inteligência, cooperação internacional e políticas públicas capazes de fortalecer a presença do Estado nas regiões mais vulneráveis”, concluiu.





