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Discursos no Senado ficam mais curtos e viram “monólogos” voltados às redes sociais, aponta estudo

Pesquisa da Consultoria Legislativa mostra queda no tempo das falas, forte redução dos apartes e mudança no perfil do debate em Plenário entre 2007 e 2024
19/01/26 às 08:52h
Discursos no Senado ficam mais curtos e viram “monólogos” voltados às redes sociais, aponta estudo

(Foto: Agência Senado)

Os discursos dos senadores no Plenário do Senado estão cada vez mais curtos, com menos interrupções e réplicas, e passaram a priorizar a comunicação com o público das redes sociais. A constatação é de um estudo da Consultoria Legislativa do Senado, assinado pelo consultor Pedro Duarte Blanco.

Intitulada Plenário, Palanque, Estúdio: discursos no Plenário do Senado Federal entre 2007 e 2024, a pesquisa aponta uma redução significativa dos apartes e uma mudança no formato das sessões, que perderam parte do caráter dialogado e passaram a se aproximar de um modelo de “monólogo”, voltado ao público virtual.

Segundo Blanco, as transformações estão ligadas às mudanças tecnológicas e à consolidação das redes sociais como espaço central da comunicação política. O estudo identifica incentivo a falas mais “clipáveis”, com menos improviso e menor margem para interação, diante do risco de cortes e edições fora de contexto.

O artigo também destaca que, durante a pandemia, o uso intensivo do formato em vídeo estimulou maior apelo retórico e o uso de linguagem figurada nos pronunciamentos. O trabalho integra a série Textos para Discussão, do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa.

Três fases dos discursos

Ao analisar os dados, a pesquisa organiza a evolução dos pronunciamentos em três fases. A primeira, entre 2007 e 2014, registra maior volume de discursos. A segunda, de 2014 a 2021, mostra queda acentuada, com ponto mínimo em 2020. A terceira indica recuperação parcial a partir de 2021.

O ano de 2013 aparece como ponto fora da curva, com quase 6,5 mil pronunciamentos, em meio às mobilizações sociais conhecidas como Jornadas de Junho. Já 2020 teve pouco mais de mil falas, reflexo das restrições impostas pela pandemia e da adoção do sistema de deliberação remota.

Mesmo com a retomada do número de discursos após o período mais crítico da pandemia, o tamanho das falas não voltou ao patamar anterior. Em 2024, a mediana de palavras nos discursos foi inferior à metade do registrado em 2007.

 

Para Blanco, a redução pode refletir tanto mudanças na comunicação política quanto um desgaste do próprio Plenário.

“Uma limitação do artigo é que ele é mais um retrato, sem estabelecer uma causalidade muito definida. Pode ser, por exemplo, que a mudança no perfil dos discursos seja uma consequência do desgaste do Plenário, e não uma causa”, afirma.

O consultor também associa as tendências recentes ao ambiente político marcado por tensão e polarização.

“Uma das hipóteses que elaborei a partir dos dados foi a de que houve um desgaste nesse modelo, principalmente a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. As tendências dos últimos anos talvez sejam sintomáticas disso”, pondera.


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Menos apartes e deslocamento do debate

A redução das interações aparece de forma mais clara nos apartes. Em 2024, o número representa pouco mais de 10% do total registrado em 2007. Quando há interrupções, predomina o chamado “aparte único”, feito por apenas um senador. Após as sessões remotas, mais de 90% das falas passaram a ocorrer sem qualquer aparte.

Apesar disso, Blanco avalia que o Plenário mantém relevância simbólica.

“Uma das possibilidades que considero é a de que os debates estejam se deslocando para as comissões, onde o trabalho parlamentar é mais especializado. Mas a fala em Plenário segue muito importante para os senadores exporem e reagirem às ideias uns dos outros, de forma pública, a partir da tribuna”, afirma.

Produtividade em alta

O estudo também relaciona o uso da palavra à produtividade legislativa. Entre 2007 e 2024, a atividade plenária caiu em pelo menos 10%, mas o número de proposições aprovadas aumentou de 377 para 519, indicando um ritmo mais intenso de deliberação, mesmo com menos sessões. Para Blanco, a avaliação da qualidade do debate é complexa.

“Há quem argumente que um debate mais focado, voltado à produção legislativa, seja melhor do que discursos longos sobre os temas da semana. Esse é um jeito hipermoderno de pensar a política, baseado em produtividade”, observa.

Ele ressalta, no entanto, que o debate público cumpre funções que vão além da deliberação imediata.

Os debates desempenham a tarefa da representação e têm um componente fático relevante: de estabelecer a qualidade do ambiente político. Talvez isso não resulte necessariamente em decisões finais melhores, mas contribui para a estabilidade do sistema como um todo”, avalia.

Gênero e perspectivas

A pesquisa também analisa questões de gênero e estratégias de atuação parlamentar. O levantamento identifica crescimento dos apartes entre senadoras a partir de 2018 e levanta a hipótese de que essa interação passou a funcionar como instrumento de articulação de pautas, em paralelo à consolidação da Bancada Feminina no Senado. Para o consultor, há espaço para mudanças no modelo atual.

“O modelo de redes sociais é desgastante. A representação política é um fator muito relevante, e o Plenário pode liderar uma retomada do debate mais dialogado, dando o exemplo”, conclui.

 

 

*Com informações de Agência Senado.