Uxi, jatobá e mais: plantas da Amazônia viram aposta em fitoterápicos

O uso de plantas com fins terapêuticos cresceu 15% no último ano no Brasil, impulsionado pela procura por tratamentos considerados menos agressivos e pela ampliação do acesso a medicamentos fitoterápicos na rede pública. O avanço ocorre em meio ao aumento da demanda por alternativas complementares para problemas digestivos, respiratórios e inflamatórios, além da expansão do mercado ligado à biodiversidade nacional.
A fitoterapia tem ganhado espaço tanto entre pacientes quanto nas políticas públicas de saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS) já inclui medicamentos fitoterápicos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), que reúne produtos oferecidos gratuitamente em unidades públicas, conforme a disponibilidade local.
Entre os fitoterápicos presentes na lista estão a espinheira-santa, indicada para gastrite e desconfortos digestivos; o guaco, utilizado para tosse e problemas respiratórios; e a alcachofra, associada ao auxílio no controle do colesterol e na digestão. A inclusão desses produtos no sistema público faz parte de uma política voltada ao uso racional de plantas medicinais e medicamentos derivados.

O crescimento do setor também ocorre em um cenário favorável para o Brasil. O país reúne uma das maiores biodiversidades do mundo, com ampla variedade de espécies vegetais de interesse medicinal. Apesar disso, apenas cerca de 20% dos medicamentos fitoterápicos comercializados no mercado nacional são produzidos a partir de plantas da flora brasileira.
Especialistas apontam que a baixa participação de espécies nacionais na indústria farmacêutica reflete desafios relacionados à pesquisa, desenvolvimento tecnológico e transformação da biodiversidade em cadeia produtiva. O processo exige investimento científico, padronização e cumprimento de regras regulatórias.
A regulamentação é um dos fatores que diferenciam medicamentos fitoterápicos de preparações caseiras. Para ser reconhecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como medicamento fitoterápico, o produto precisa comprovar eficácia, segurança e qualidade por meio de estudos científicos.
Essa exigência estabelece distinção entre produtos industrializados e o uso tradicional de plantas medicinais em chás e infusões. Enquanto práticas populares fazem parte da cultura de diferentes regiões do país, os medicamentos fitoterápicos seguem critérios semelhantes aos aplicados a outros medicamentos registrados.
O avanço do setor também acompanha o crescimento da medicina integrativa e a busca por tratamentos complementares. O envelhecimento da população, o interesse por terapias alternativas e a valorização de recursos naturais ampliaram o espaço da fitoterapia em consultórios, farmácias e serviços públicos de saúde.
Pesquisa avança e inova nos tratamentos
No Amazonas, o debate sobre fitoterápicos ganha relevância pela presença de espécies vegetais com potencial medicinal ainda pouco explorado pela indústria farmacêutica. Pesquisadores e instituições ligadas à área de saúde apontam que a biodiversidade amazônica pode representar oportunidades para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos.
Neste cenário tem sido importante o trabalho desenvolvido no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) pelo botânico e pós-doutor em Botânica Econômica Juan Revilla, que há 40 anos estuda espécies da biodiversidade amazônica e as aplicações em tratamentos de saúde.
Revilla é referência no uso terapêutico de plantas amazônicas, principalmente na pesquisa básica e catalogação de espécies, orientação sobre uso medicinal e estudos sobre o potencial farmacológico da flora da Amazônia.
Entre as espécies estudadas por ele estão uxi-amarelo e suas qualidades no combates a miomas; unha-de-gato e suas propriedades anti-inflamatórias, antivirais e imunológicas; e o jatobá, usado para o combate a problemas respiratórios e fraqueza de um modo geral.






