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13 anos sem Chorão: a genialidade do Marginal Alado e a “monstruosidade” do Charlie Brown Jr.

Chorão, líder do Charlie Brown Jr, foi encontrado morto em seu apartamento, vítima de uma overdose de cocaína
06/03/26 às 11:20h
13 anos sem Chorão: a genialidade do Marginal Alado e a “monstruosidade” do Charlie Brown Jr.

(Foto: reprodução)

Na manhã do dia 6 de março de 2013, foi um dos poucos dias em que parei para ouvir rádio pela manhã. E foi após ouvir três músicas seguidas da banda Charlie Brown Jr. que veio a fatídica notícia. Alexandre Magno Abrão, o Chorão, líder de uma das bandas de rock mais influentes, queridas e gigantes da década de 1990, foi encontrado morto em seu apartamento, vítima de uma overdose de cocaína.

Maior que o impacto da morte de Chorão para o rock nacional, somente sua carreira e o seu legado. Nascido na cidade de São Paulo, Alexandre passou boa parte da infância e da adolescência na cidade de Santos, onde teve uma vida difícil. Seu pai era ambulante, e Alexandre era péssimo aluno. Aos 14 anos, deixou a escola ainda na sétima série e começou a andar de skate. Foi nessa tribo que recebeu o apelido Chorão, dado ao seu lado raivoso e, ao mesmo tempo, emocional, que por vezes o fazia chorar e pedir desculpas aos amigos.

(Foto: a primeira formação do Charlie Brown Jr em 1997 – Reprodução)

Além do amor pelo skate, Chorão também tinha amor pela música. Entre suas bandas favoritas estavam Suicidal Tendencies, Grinders, Garotos Podres, Olho Seco, Ratos de Porão e Camisa de Vênus, que viriam a ser grandes influências em sua carreira musical. O Charlie Brown Jr. foi formado por Chorão, junto com o baixista Champignon, os guitarristas Marcão e Thiago Castanho e o baterista Renato Pelado.

A ideia da banda era tocar em eventos de skate e surf, mas logo surgiu a vontade de profissionalizar o trabalho. A banda foi descoberta pelo músico e produtor musical Tadeu Patola, que era amigo de Rick Bonádio, na época diretor artístico da gravadora Virgin, que contratou o grupo e lançou seu primeiro disco em 1997, Transpiração Contínua Prolongada.

O sucesso do Charlie Brown Jr. é algo difícil de explicar. Poucas bandas no Brasil podem dizer que conseguiram emplacar ao menos um hit de sucesso por disco. De 1997 a 2013, com um total de 12 álbuns gravados, o Charlie Brown Jr. garantiu pelo menos três canções nas rádios. É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido músicas como “Proibida pra Mim”, “Zóio de Lula”, “Te Levar”, “Papo Reto”, “Me Encontra” ou “Só os Loucos Sabem”.

Chorão sempre foi um guerreiro imperfeito. Desde cedo lutou por sua carreira, remando contra a maré e cantando, em suas músicas, histórias de superação, derrota e vitória. A poesia urbana, com palavras simples, termos diretos e atitude, fez de Chorão um poeta tão importante para o rock nacional quanto Cazuza e Renato Russo. O que o diferencia dos ídolos dos anos 1980 é o fato de não ser filho de diplomata ou de presidente de gravadora. Chorão enfrentou preconceito, fome, foi despejado de casa duas vezes, sacrificou mais do que tinha por sua realização e alcançou o que talvez nunca tivesse imaginado.

Sua identificação com uma geração quase conformista no final dos anos 1990 foi um grande choque cultural. Falar da realidade da vida e das ruas com tanta crueza era algo de nicho, reservado a grandes nomes do rap, como os Racionais. Com o Charlie Brown Jr., Chorão furou a bolha, falou para uma juventude ávida por palavras de força e fé, reuniu multidões e levou o grupo ao status de uma das maiores bandas de rock do Brasil e, provavelmente, o último grande fenômeno do gênero desde então.

Quem teve a oportunidade de ver a banda ao vivo lembra de como o “marginal alado” tinha a plateia nas mãos. Mais eficiente que um maestro, Chorão cantava, discursava e berrava. Um show do CBJR era quase um culto, regado a muito rock, ritmo e atitude. Muitos artistas confirmam a força da banda. Dih Ferrero chegou a comentar no Vênus Podcast, em 2022, o quanto a potência do Charlie Brown Jr. chegava a ser intimidante para outras bandas: “Em festival, ninguém queria tocar depois dos caras”, relembrou o ex-líder do NX Zero. “Eles não deixavam nada pra ninguém. A galera ia embora depois do CBJR. Sempre era uma briga para escalar alguém depois deles. Geralmente, os caras eram colocados para encerrar a noite.”

(Foto: reprodução)

Tanta força, carisma e talento também vieram acompanhados de um temperamento forte. Chorão odiava na mesma intensidade em que amava; era inconstante e imprevisível. Suas desavenças eram públicas, não só com outros artistas, como CPM 22, O Rappa e Los Hermanos, este último caso terminou em troca de socos em um aeroporto em 2004. Chorão também brigou com integrantes de sua própria banda, começando por Thiago Castanho, que deixou o grupo em 2001 (voltando depois, em 2005), e anos depois com Marcão, Pelado e Champignon. O baixista foi cofundador do CBJR junto com Chorão, e com ele o vocalista teve algumas das maiores brigas.

Em 2006, Champignon deu uma entrevista afirmando que os ex-membros do grupo deixaram o Charlie Brown Jr. por desavenças financeiras. Segundo ele, Chorão ganhava mais que os demais músicos, o que agravou uma fase de brigas constantes entre os integrantes. Em 2011, Champignon e Marcão voltaram ao CBJR, mas os desentendimentos entre os músicos não haviam acabado, culminando em um show, em 2012, no qual Chorão deu uma bronca pública no baixista no palco, expulsando-o da apresentação em seguida.


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O último trabalho da banda, La Familia 013, é mais do que uma carta aos fãs: é uma despedida. Separado havia mais de um ano da esposa, Graziela Gonçalves, musa inspiradora de grande parte das letras escritas por Chorão, o músico se afundava na cocaína. Morando sozinho, na madrugada de 6 de março, uma última dose da droga tiraria sua vida.

O disco foi lançado em setembro daquele ano, seis meses após a morte de Chorão. As letras são melancólicas, românticas e, em alguns momentos, desesperadas. Sem medo, Chorão cantou sobre a dor da separação, da solidão, da saudade e de como a vida pode ser cruel ao traçar destinos.

O vocalista sequer havia gravado todas as vozes oficiais para o álbum antes de morrer. Segundo Tadeu Patola, praticamente todas as músicas estavam com a chamada “voz guia”, gravada de forma improvisada na pré-produção de um disco e posteriormente substituída pela voz oficial.

(Foto: Lá Família 013, último disco do Charlie Brown Jr – Divulgação)

“Foi difícil. Tinha muita coisa gravada errada. Teve música em que ele colocou a voz enquanto estava deitado no tapete do estúdio. E, ao mesmo tempo, é impressionante, porque ele interpretou as músicas do jeito certo, colocando toda a dor dele ali. Ficou autêntico”, desabafou Tadeu, que foi grande amigo de Chorão.

(Foto: divulgação)

E hoje, 13 anos depois, os fãs do Charlie Brown Jr. ainda lembram com carinho desse monstro nos palcos e tão humano quanto todos nós. A música do Charlie Brown Jr., embora totalmente autobiográfica, fala com todos que a escutam e assimilam, porque é a história de dias de luta e glória de uma geração inteira que cresceu encontrando na música de Chorão um alento para uma juventude que, nas palavras do próprio cantor, “não era levada a sério”. Poderia terminar este texto com muitos clichês, mas só o que posso dizer é: valeu, Chorão. Um dia a gente se encontra.

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