“Six seven”: o que um número sem sentido diz sobre como a geração Z se comunica

(Foto: Reprodução)
A origem do meme citado está na música “Doot Doot (6 7)”, do rapper americano Skrilla, lançada oficialmente em fevereiro de 2025. O refrão, que apenas repete o número, foi associado a vídeos do jogador de basquete LaMelo Ball, que tem 2,01 metros de altura, o equivalente a 6 pés e 7 polegadas no sistema americano.
A partir daí, o “six seven” deixou de ser uma referência específica, possivelmente ligada à rua 67 da Filadélfia ou ao código policial “10-67”, para se tornar uma expressão fática, ou seja, uma frase que não transmite informação, mas sim um sentimento de pertencimento, ironia ou absurdo.

O “brainrot” como linguagem
A expressão representa uma categoria de humor que os próprios jovens chamam de “brainrot”, algo como “apodrecimento cerebral”, conteúdos tão repetitivos, absurdos e nonsense que parecem derreter o cérebro de quem consome. Mas, para os especialistas, há método nessa aparente loucura.
O estudo “80% da Geração Z acredita que memes facilitam conexões”, realizado pelo InstitutoZ em parceria com a Saquinho Mídias Criativas, ouviu 1.479 jovens de 13 a 27 anos e revelou dados expressivos. Mais de 80% dos entrevistados afirmaram que os memes ajudam na socialização, e mais da metade concordou que eles contribuem para o senso de pertencimento em comunidades.
O estudo também apontou que 46% dos jovens levam os memes para além do ambiente virtual, usando-os também em interações presenciais.
De acordo com os pesquisadores do InstitutoZ, é inegável que o meme é uma ferramenta de conexão de comunidades que partilham de interesses em comum. O meme funciona como linguagem de associação, permite expressar ideias complexas mesmo na ausência de palavras corretas e cria pertencimento entre grupos de pessoas que partilham as mesmas referências.
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Aceleração digital
Entre os termos que fazem parte desse novo vocabulário, o “brainrot” se destaca como a estética do absurdo, enquanto “mogado”, que significa ser superado ou humilhado por alguém em algum aspecto, reflete a cultura de comparação e performance online. Geralmente, o termo vem acompanhado de outro fenômeno da internet: o “beta”, com origem na franquia “Matrix” e popularizado pela comunidade RedPill, é usado para inferiorizar, como o clássico “perdedor”.

Se antes as gírias e os códigos entre gerações levavam anos para se consolidar, hoje o ciclo se mede em meses, ou até semanas. Os dados ajudam a explicar essa aceleração.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, conduzida pelo Cetic.br e pelo NIC.br, 92% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos são usuários de internet, o que representa cerca de 24,5 milhões de jovens no ambiente digital. O celular é o principal dispositivo de acesso, usado por 96% desse público. Além disso, 85% têm perfil em pelo menos uma plataforma digital, sendo WhatsApp e YouTube as mais acessadas, seguidas de perto por Instagram e TikTok.
A pesquisa também revelou que 65% dos jovens já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa, principalmente para estudos (59%) e busca de informações (42%). Esse dado mostra o quanto a tecnologia está incorporada ao cotidiano da Geração Z, e como a criação e disseminação de memes ganham novos contornos com o auxílio da IA.
Um produto que teve origem a partir dessa nova cultura digital entre os jovens é a “novela de frutas”, como ficou conhecida a série de vídeos criados por IA em que frutas interpretam personagens em histórias semelhantes a de telenovelas. Os amantes “Moranguete” e “Abacatudo” são dois dos persongens que apareceram nos feeds de milhões de usuários do Instagram e TikTok nas últimas semanas.

Gerações cresceram em mundos diferentes
Para os Millennials, nascidos entre 1981 e 1996, o meme era um formato de piada, algo que se consumia e compartilhava. Para a Geração Z, nascida entre 1995 e 2010, o meme é linguagem primária de comunicação e socialização.
Como aponta o estudo do InstitutoZ, 92% dos jovens consomem memes por diversão, mas a principal função vai além do entretenimento: representa a capacidade de criar códigos próprios, de se diferenciar das gerações anteriores e de construir identidade coletiva em um mundo hiperconectado.




