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O culto do burnout: como obsessão pela produtividade virou uma seita que adoece

Trabalhar até desmaiar virou rotina? Conheça a história de quem vive o limite e entenda os riscos da normalização
25/03/26 às 15:03h
O culto do burnout: como obsessão pela produtividade virou uma seita que adoece

(Foto: Montagem)

À Rede Onda Digital, Mateko contou que acordou no chão do próprio quarto. Não lembrava de ter caído. Não lembrava do momento exato em que sua mente decidiu que não dava mais. O que ele lembra é que, ao abrir os olhos, a primeira coisa que fez foi pegar o celular e voltar a trabalhar.

“Minha cabeça deu um estalo e eu apaguei. Quando acordei, continuei trabalhando porque enfim, tem que entregar as demandas né”, conta o editor de vídeo e criador de conteúdo.

Ele tem quatro empregos. Trabalha para quatro empresas simultaneamente. Sua rotina é um ritual que se repete todos os dias: acorda, se entope de café e bebidas energéticas, trabalha até o limite, volta para casa, toma remédio para dormir e recomeça no dia seguinte.

“Os únicos momentos que eu tenho em paz são sábado de manhã. Mas a tarde normalmente já tenho que trabalhar de novo. Eu trabalho de domingo a domingo sem parar.”

A “seita” do esgotamento

Na maioria das seitas, a iniciação exige uma prova de fé. No mundo corporativo, ela chega disfarçada de oportunidade. Uma promoção. Um elogio. A sensação de ser indispensável. O novato aprende a língua: “vestir a camisa”, “dar o sangue”, “fazer acontecer”. Aprende os rituais: chegar antes, sair depois, responder e-mails à meia-noite.

Para Mateko, a iniciação aconteceu quando ele aceitou o quarto emprego. Não por necessidade apenas, mas porque aprendeu que seu valor profissional se media pela quantidade de trabalho que conseguia empilhar.

“O impacto de ter quatro empregos é não ter tempo para nada. Não saio mais com amigos, não tenho mais tempo de cuidar do meu corpo e da minha mente. Eu abdico de momentos em família, abdico de tempo de qualidade, abdico de sono, descanso, etc, etc.”

Mateko, editor de vídeo e criador de conteúdo (Foto: Arquivo pessoal)

A médica psiquiatra dra. Alessandra Pereira, com mais de 25 anos de experiência, atende diariamente profissionais que chegam ao consultório nessa mesma encruzilhada. Ela explica que a normalização do cansaço virou um fenômeno social.

“Hoje em dia, na sociedade, a gente percebe que as pessoas gostam de exibir o troféu do cansaço. Virou bonito dizer que está cansado. A pessoa trabalhar demais o tempo todo é sinal de competência, de comprometimento.”

 

Mas o corpo não se engana com discursos. Enquanto o profissional se entrega à rotina exaustiva, o organismo acumula uma dívida que será cobrada mais cedo ou mais tarde.

A cereja perigosa do bolo: estimulantes

Quando o cansaço acumulado começa a comprometer o desempenho, o culto oferece uma solução aparentemente mágica: as substâncias. Café, energéticos, e para os mais avançados, os psicoestimulantes como Ritalina e Venvanse.

Mateko conta que sobrevive “à base de café e Monster”. Recentemente, precisou adicionar um remédio para dormir à equação, um ciclo vicioso que revela o paradoxo da busca por performance.

“A minha rotina basicamente é acordar, me entupir de cafeína, trabalhar, voltar para casa, tomar remédio para dormir (porque a cafeína não me permitiria dormir se não fosse o remédio), e no dia seguinte começar tudo de novo.”

A doutora Alessandra explica que esse caminho é comum entre profissionais que enfrentam jornadas longas e pressão por metas.

“Eles usam estimulantes para aguentar jornadas longas e manter o foco pelo cansaço acumulado.”

Dra. Alessandra Pereira médica especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) (Foto: Arquivo pessoal)

No começo, funciona. A pessoa sente um aumento de energia, de concentração. O problema, alerta a psiquiatra, é que o organismo começa a cobrar o esforço.

“Com o tempo, a pessoa evolui com insônia, ansiedade, irritabilidade. Parece que aquela medicação não dá mais conta. Aquilo acaba virando um quadro de exaustão, porque esgota toda a reserva energética do indivíduo.”


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Quando o corpo diz “chega”

Mateko aprendeu na prática o que acontece quando a reserva energética se esgota.

“Eu costumo trabalhar até minha cabeça me desligar, e depois eu continuo trabalhando.”

Ele descreve os episódios como “apagões”. Já aconteceu de passar um dia inteiro desacordado. Quando voltou a si, explicou para um cliente o que havia acontecido. A resposta foi seca: “sinto muito”. E, na sequência: “mas o vídeo você consegue entregar até daqui a uma hora?”

“Sempre acordo com muita ansiedade, porque quando isso acontece normalmente atrasa tudo. Daí eu preciso de remédios pra me manter são”, desabafa.

A psiquiatra Alessandra lembra de um caso que a marcou profundamente. Um advogado que produzia muito, entregava muitos processos, mas simplesmente parou de dormir. Em vez de descansar, ele continuava produzindo. Até que chegou ao consultório “completamente surtado, após três dias sem dormir absolutamente nada”.

Ela conta que o paciente precisou de dois anos para se reestruturar completamente.

O preço alto

O que diferencia uma pessoa dedicada de alguém que já está em um quadro patológico? Para a doutora Alessandra, a resposta está no equilíbrio.

“Tudo na vida nós precisamos ter um equilíbrio entre os pilares da vida: pilar pessoal, pilar familiar e social, pilar profissional, pilar espiritual. Esse ponto de equilíbrio é que faz com que a gente tenha saúde mental.”

Quando a pessoa consegue desligar, recuperar as energias, manter relações sociais e familiares preservadas, ela está no ponto de equilíbrio.

O comportamento se transforma em doença quando ele começa a ter sintomas de que algo não vai bem, como insônia, irritabilidade, um cansaço extremo, dificuldade de concentração mesmo tomando a medicação e uma sensação constante de esgotamento.”

Mateko reconhece esses sintomas. A ansiedade constante. O medo de atrasar entregas. A sensação de que nunca é suficiente. E, no centro de tudo, a dificuldade de dizer não aos clientes, aos prazos.

“Clientes não querem saber se você está bem. Eles querem que você entregue o material, e não estão nem aí se você apagou, se quebrou a perna, se bateu o carro.”

A doutora Alessandra faz um alerta que parece óbvio, mas que se perdeu no discurso da alta performance: produtividade não se sustenta com exaustão.

“A produtividade de hoje sem equilíbrio com certeza vai ser o colapso do amanhã.”

Ela ressalta que o verdadeiro risco não é apenas o uso de medicamentos sem prescrição. É uma cultura social que normaliza pessoas emprestarem remédios, que faz com que profissionais tenham medo de ir ao psiquiatra mas usem ilegalmente substâncias psiquiátricas, que transforma o cansaço em troféu a ser exibido.

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