Matinta Perera: a lenda amazônica que transforma assobios em mistério

Poucas figuras do imaginário amazônico despertam tanto fascínio quanto a Matinta Perera. Presente nas histórias contadas em comunidades ribeirinhas, cidades do interior e até em Manaus, ela é uma das personagens mais marcantes do folclore da região. Sua fama ultrapassou as fronteiras da Amazônia nos últimos anos, aparecendo na série “Cidade Invisível”, da Netflix, e inspirando apresentações culturais, como uma das fantasias da cunhã-poranga do Boi Garantido, Isabelle Nogueira.
A lenda descreve a Matinta como uma mulher idosa de aparência misteriosa, geralmente vestida com roupas escuras e dona de poderes sobrenaturais. Em muitas versões, ela é capaz de se transformar em uma ave noturna para percorrer grandes distâncias sob a proteção da escuridão. Seu principal sinal de presença é um assobio fino, prolongado e inquietante que corta o silêncio das noites amazônicas.

O som é tão característico que se tornou a marca registrada da personagem. Os mais antigos costumam dizer que o assobio parece distante e próximo ao mesmo tempo, confundindo quem tenta descobrir sua origem. Em diversas comunidades, há quem acredite que responder ao chamado ou tentar seguir o som pode atrair problemas e acontecimentos inexplicáveis.
Uma das versões mais conhecidas da história conta que, ao ouvir o assobio, algumas pessoas prometem oferecer tabaco, café ou outro agrado para que a visitante misteriosa vá embora. O detalhe mais curioso é que, segundo a tradição oral, no dia seguinte uma mulher desconhecida pode aparecer para cobrar exatamente aquilo que foi prometido durante a madrugada.

A origem da Matinta Perera não é única. Como acontece com muitas lendas amazônicas, a narrativa ganhou novas formas ao longo dos séculos. Algumas histórias afirmam que ela recebeu um dom sobrenatural; outras dizem que vive sob uma maldição. Há ainda relatos segundo os quais esse poder pode ser transmitido de uma pessoa para outra, garantindo a continuidade da lenda entre gerações.
Em determinadas regiões da Amazônia, a personagem é associada a aves noturnas, especialmente ao corujão. O canto dessas aves muitas vezes é confundido com o famoso assobio da Matinta, reforçando a ligação entre a lenda e os mistérios da floresta. Essa relação ajuda a explicar por que muitas histórias surgem justamente em locais cercados pela mata e pelos rios amazônicos.
Apesar da fama assustadora, a Matinta não representa apenas medo. Para estudiosos do folclore, ela simboliza a força da tradição oral e a forma como os povos amazônicos interpretam os mistérios da natureza. Em algumas comunidades, a personagem também é vista como uma guardiã invisível que pune a falta de respeito e lembra a importância de manter viva a sabedoria dos mais velhos.
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Matinta também esteve retratada na série “Cidade Invisível”, da Netflix, que apresentou diversas lendas brasileiras a um novo público. A produção ajudou a despertar o interesse de milhares de pessoas pelo folclore amazônico e suas narrativas ancestrais.
Exibida pela primeira vez em 2021, Cidade Invisível rapidamente chamou a atenção do público ao transformar personagens do folclore brasileiro em protagonistas de uma trama contemporânea. A série alcançou grande repercussão dentro e fora do país, aparecendo entre os títulos mais vistos da Netflix em 40 países.

A força da Matinta Perera na cultura popular também ficou evidente fora da Amazônia. Durante o tradicional Baile de Halloween, em São Paulo, a cunhã-poranga Isabelle Nogueira apresentou uma fantasia inspirada na personagem do folclore amazônico. A produção chamou a atenção do público e foi eleita a favorita em votação conquistando 68% dos votos e reforçando o interesse nacional por uma das lendas mais emblemáticas da Amazônia.
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Mais do que uma simples narrativa de assombração, a Matinta Perera é um símbolo da identidade amazônica. Ela reúne elementos da floresta, das crenças populares e da memória coletiva de um povo que aprendeu a transformar os sons da noite em histórias capazes de atravessar gerações. Talvez seja por isso que, até hoje, um simples assobio no escuro ainda seja suficiente para despertar a curiosidade e o respeito de quem vive na Amazônia.




