No estado mais indígena do país, partidos ignoram povos originários

A Federação Psol-Rede Sustentabilidade lidera, isolada, o ranking de candidaturas indígenas no Amazonas, com oito registros, mais de um terço de todas as candidaturas indígenas do estado. Os números constam de um levantamento disponbilizado, neste sábado (23), pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A federação apresentou inclusive candidaturas majoritárias, com Isael Munduruku candidato ao Governo do Estado e Ismael Munduruku candidato ao Senado Federal. O PDT aparece em segundo lugar, com quatro candidaturas, seguido por MDB, com três, e PT, com duas.
Fecham a lista Agir, DC, Novo, PSB e PSD, cada um com apenas uma candidatura indígena. Os demais 14 partidos com registro no Amazonas, entre eles legendas com grandes bancadas no estado, como PL, Avante, Podemos, Republicanos e União Brasil, não lançaram nenhum candidato ou candidata indígena.
Conforme o Instituto Brasileiiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amazonas concentra a maior população indígena do país, mas o levantamento do TSE mostra que poucos partidos lançaram candidaturas de representantes dos povos originários nestas eleições.
Enquanto os indígenas somam 12,5% da população do estado, a maior parcela indígena do Brasil em números absolutos, com 490,9 mil pessoas, eles representam apenas 4,8% das candidaturas registradas pelos partidos. A população negra também aparece sub-representada nas chapas partidárias.
Segundo a classificação do IBGE, no Amazonas, negros são a esmagadora maioria da população, 73,7% dos habitantes, sendo 68,8% pardos e 4,9% pretos, o maior contingente proporcional do país depois do Pará. Nas candidaturas partidárias, porém, esse grupo soma 316 registros, ou 68,4% do total, abaixo, portanto, do peso real que tem na sociedade amazonense, ainda que a diferença seja menor que a observada entre os indígenas.
Já nas candidaturas negras a distribuição é mais equilibrada entre os partidos, apenas o Unidade Popular (UP) não tem nenhuma candidatura negra, mas a liderança segue com PL (29), MDB (27) e Avante (26), os mesmos partidos que concentram as maiores chapas gerais do estado.
Partidos grandes, mas pouca diversidade
O contraste mais evidente do levantamento está exatamente no cruzamento dessas duas variáveis. A Rede, partido que mais investe em candidaturas indígenas, tem apenas 14 candidaturas no total, uma fração pequena diante de legendas como o PL, que tem quase três vezes mais candidaturas, mas nenhuma indígena. Isso passa a mesma mensagem: partidos maiores, com mais recursos e estrutura, não traduzem necessariamente esse tamanho em diversidade racial e étnica dentro das próprias chapas.
O fenômeno chama atenção porque o Amazonas não só tem a maior população indígena do país como também concentra os municípios com os maiores percentuais dessa população no Brasil, casos de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, ambos com mais de 90% dos moradores autodeclarados indígenas.
Manaus, a capital, é o município brasileiro com o maior número absoluto de indígenas do país, 71,7 mil pessoas. O estado é também o de menor percentual de população branca do Brasil, 18,4%. Ainda assim, a política partidária amazonense segue sendo, majoritariamente, uma disputa entre candidaturas “demais”, nem negras nem indígenas, e candidaturas negras, com os povos originários do estado seguindo à margem das disputas eleitorais.





