Do carrinho de rua ao copo: como o tradicional mingau do AM ganhou uma versão instantânea

O mingau que por anos foi vendido em carrinhos pelas ruas de Manaus ganhou uma versão instantânea, em copo, pronta para consumo em poucos minutos. O produto é criação de Vanilson Costa, fundador e CEO da Amazon Porridge, empresa que hoje opera em uma planta de cerca de 1.200 metros quadrados no bairro Alvorada, na zona centro-oeste da capital amazonense.
Costa é goiano e serviu nas Operações Especiais do Exército Brasileiro, em Goiânia. Seu primeiro contato com o Amazonas ocorreu em 2004, durante uma operação militar no estado. A relação se intensificou nos anos seguintes, até que, ao deixar as Forças Armadas, decidiu se mudar definitivamente para a região. “No final de 2009, eu decidi vir de Goiânia para cá para poder arriscar a vida aqui no empreendedorismo”, contou.
O primeiro empreendimento de Costa no Amazonas não teve relação com alimentos. Aproveitando a experiência militar, ele montou uma indústria de equipamentos como coletes e fardamentos. O negócio teve resultados iniciais, mas esbarrou na falta de mão de obra qualificada na região para esse tipo de confecção.
Anos mais tarde, e já dentro da incubadora de empresas da Universidade do Estado do Amazonas (INUEA) que a ideia do mingau instantâneo nasceu, embora Costa estivesse, naquele momento, desenvolvendo um projeto totalmente diferente: uma fintech voltada à comercialização de créditos de carbono na região.

Da ideia à fórmula
Um edital interno da incubadora, voltado a produtos de bioeconomia, mudou o rumo do projeto. Em busca de uma ideia que se encaixasse no chamado, Costa entrou em uma padaria e viu um copo de mingau sobre o balcão. “Ali foi quando nasceu o start da ideia”, relatou. “Se a gente conseguir desenvolver um produto instantâneo, a gente vai ter uma aceitabilidade muito boa, porque as pessoas vão conseguir perceber a qualidade do produto”, lembrou.
Sem formação na área de alimentos, ele recorreu à filha, então ingressante no curso de engenharia de alimentos, e passou a estudar o tema. O desenvolvimento da fórmula contou com apoio de uma equipe de pesquisa em análise de alimentos funcionais, até chegar à composição atual, com castanha, leite, farinha de tapioca e banana frita.
Os gargalos da matéria-prima
Estruturar uma cadeia produtiva capaz de sustentar a escala de produção foi, segundo Costa, o maior desafio do negócio. A empresa busca banana em municípios como Manicoré, onde a logística é prejudicada pelo acesso à rodovia AM-309, e em Boca do Acre, região com grande produção de banana e castanha, mas de difícil acesso. O leite usado na fórmula vem de Rondônia, já que o Amazonas não possui bacia leiteira estruturada.
A castanha, insumo 100% extrativista, também impôs dificuldades. Em 2023, a seca afetou a produção de banana; no ano seguinte, atingiu a colheita de castanha, elevando os preços do insumo.
Para driblar parte do gargalo logístico com a banana, a empresa estuda a instalação de uma planta em Roraima, estado vizinho que possui polo de produção da fruta.
Diante desse cenário, Costa avalia de forma crítica o ecossistema de inovação do Amazonas. “A gente está vendo aqui muito recurso para inovação sendo aplicado, pelo menos falam que está sendo aplicado, mas a gente está vendo pouco resultado”, afirmou, citando como exemplo a produção de açaí no Havaí e a escala de criação de tambaqui na China como oportunidades que, segundo ele, deixaram de ser exploradas localmente.

Mercado e expansão
Hoje, a fábrica tem capacidade para produzir até 10 mil copos por dia, além de 10 mil quilos diários de sachês de um quilo, linha institucional destinada à merenda escolar. O produto já está disponível em redes como o Carrefour, além de frutarias e outros mercados de Manaus, com preço sugerido entre R$ 9,90 e R$ 14, variando conforme o ponto de venda.
A empresa afirma ter atingido o ponto de equilíbrio financeiro e já emprega 14 pessoas diretamente, além de impactar indiretamente produtores familiares de banana e castanha. A embalagem já traz versão em inglês, sinalizando planos de exportação.
Novos sabores estão em desenvolvimento, incluindo mingau de coco e uma versão caramelizada, além de uma linha salgada com caldeirada de tambaqui em copo. A empresa também trabalha em parceria com indústrias de defesa em uma ração amazônica voltada a operações militares e situações de catástrofe. Os lançamentos estão previstos para os próximos meses, até o fim do ano.





