Mercado financeiro: entenda o medo fiscal no novo Lula 4

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais, neste domingo (25), provocou uma reação imediata do mercado financeiro e expôs uma das principais fontes de tensão entre o governo e os investidores: a condução das contas públicas. Nesta segunda-feira (26), a Bolsa de Valores brasileira acionou o circuit breaker após o Ibovespa atingir queda de 10%, interrompendo as negociações por 30 minutos. O mecanismo não era acionado desde março de 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Mais do que uma reação isolada ao resultado das urnas, o movimento reflete o temor de parte dos investidores de que o próximo mandato de Lula não consiga conciliar a manutenção das políticas sociais e dos investimentos públicos com um controle mais rigoroso das despesas e da dívida do país.
A reação já era esperada por uma parcela expressiva do mercado. Levantamento do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado, divulgado na sexta-feira (23), mostrou que 80% dos entrevistados projetavam queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula vencesse a disputa.
A pesquisa indicava que os investidores haviam associado uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) à possibilidade de um ajuste fiscal mais intenso, uma vez que ele anunciava um corte de gastos de R$ 200 bilhões no orçamento da União para 2027.
Dívida pública alimenta preocupação
O centro da preocupação do mercado financeiro está na trajetória da dívida pública brasileira, que supera 82% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados citados pela Reuters nesta segunda-feira.
Para os investidores, não basta que o governo anuncie metas de equilíbrio orçamentário. É necessário demonstrar como elas serão alcançadas, quais despesas poderão ser contidas, de onde virão as receitas e como o país pretende estabilizar o endividamento ao longo dos próximos anos.
A dificuldade está na composição do orçamento federal. Uma parcela expressiva das despesas é obrigatória, incluindo aposentadorias e outros compromissos previstos em lei. Ao mesmo tempo, o governo precisa financiar políticas sociais, serviços públicos e investimentos. Sem uma combinação de receitas e despesas considerada sustentável, cresce o receio de que a dívida continue avançando.
A equipe de Lula tem como meta alcançar superávit primário de aproximadamente 1,3% do PIB até 2030. O resultado primário corresponde à diferença entre receitas e despesas do governo, excluindo o pagamento dos juros da dívida. A questão, para os agentes financeiros, é se o objetivo será viável e quais medidas serão adotadas para alcançá-lo.
Como o risco fiscal chega à Bolsa
A relação entre as contas públicas e o mercado acionário passa, principalmente, pelos juros.
Quando os investidores avaliam que o governo pode ter dificuldades para controlar o endividamento, passam a exigir uma remuneração maior para financiar o país. Essa exigência se reflete nos juros futuros e pode elevar o custo de emissão e rolagem dos títulos públicos.
O movimento também afeta as empresas. Com juros mais elevados, empréstimos e financiamentos ficam mais caros, projetos de expansão podem perder atratividade e o consumo tende a enfrentar dificuldades. A perspectiva de lucros menores reduz o preço que os investidores estão dispostos a pagar pelas ações.
O resultado é uma cadeia de efeitos: a preocupação fiscal eleva o prêmio de risco, pressiona os juros, encarece o crédito e pode reduzir o valor de mercado das empresas.
A dinâmica também pode atingir o câmbio. Quando investidores reduzem a exposição ao Brasil, a procura por ativos estrangeiros pode aumentar e pressionar o real. A desvalorização da moeda brasileira encarece produtos importados e insumos cotados em dólar, com possíveis reflexos sobre a inflação.
Se as pressões inflacionárias persistirem, o Banco Central poderá ter menos espaço para reduzir a taxa básica de juros, a Selic. Juros elevados por mais tempo, por sua vez, dificultam a recuperação do crédito e dos investimentos.
É esse encadeamento que ajuda a explicar por que a política fiscal se tornou um dos principais pontos de tensão entre a vitória de Lula e as expectativas do mercado financeiro.
O mercado precifica expectativas, não apenas resultados
A intensidade da reação desta segunda-feira também revela como os preços dos ativos financeiros dependem das expectativas sobre o futuro.
Antes do segundo turno, parte dos investidores havia apostado em uma mudança de governo e em uma política de contenção de despesas mais rigorosa. A vitória de Lula contrariou esse cenário e desencadeou uma revisão das posições.
Nesse contexto, a queda das ações não significa necessariamente que as empresas brasileiras tenham perdido, de uma hora para outra, a mesma proporção de seu valor econômico. Os preços refletem também a avaliação dos investidores sobre riscos futuros, perspectivas de lucro e custo do dinheiro.





