Crise no Paraguai: veja quem são os responsáveis e o que acontece com os clientes do Ueno Bank

A crise do Ueno Bank, no Paraguai, colocou antigos dirigentes da instituição, empresários ligados ao grupo controlador e autoridades públicas sob pressão. O Ministério Público apresentou acusações contra oito integrantes da direção do banco e outras 19 pessoas, enquanto o Banco Central paraguaio tenta recuperar recursos e garantir o pagamento dos clientes. A investigação também apura operações de crédito suspeitas e a movimentação de milhões de dólares em depósitos de órgãos públicos.
Quem são os investigados?
Entre os principais alvos estão o empresário Federico Miguel Vázquez Villasanti, presidente do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, e o então presidente da instituição, Juan Manuel Gustale. Também foram investigados outros seis integrantes da direção: Julio Daniel Rey, Diana Leticia Mongelós, Mariana Torres Rubiani, Alejandro Gómez Abente, Diego Fernando Duarte e Miguel Ángel Almada.
O Ministério Público paraguaio apresentou acusações contra os oito diretores e outras 19 pessoas ligadas a empresas que teriam participado das operações investigadas. Entre os possíveis crimes apontados estão conduta indevida em situações de crise, lesão de confiança, tentativa de estelionato e irregularidades na escrituração comercial.
A Justiça convocou os investigados para audiências de imposição de medidas cautelares. Para Federico Miguel Vázquez, a Promotoria pediu prisão preventiva. Para os demais diretores, solicitou prisão domiciliar com monitoramento eletrônico.
As acusações ainda precisam ser analisadas pela Justiça. Portanto, os investigados não podem ser tratados como culpados antes de uma condenação.
Qual é a suspeita de irregularidade?
Um dos principais pontos da investigação envolve empréstimos concedidos pelo Ueno Bank a empresas ligadas ao próprio grupo controlador. O Banco Central identificou problemas na avaliação dos créditos, na documentação apresentada pelos tomadores e no acompanhamento dos financiamentos.
A suspeita é de que operações entre empresas relacionadas tenham sido utilizadas para esconder a real situação financeira da instituição.
Uma das operações investigadas envolve uma carteira de créditos avaliada em US$ 74,4 milhões, cuja venda à empresa Vinanzas S.A. teria sido simulada. Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia com base na investigação do Ministério Público, a empresa teria recebido cerca de US$ 76 milhões em empréstimos concedidos pelo próprio Ueno a companhias ligadas ao Grupo Vázquez e utilizado os recursos para comprar a carteira.
A operação teria criado a aparência de uma venda regular, embora o dinheiro utilizado viesse de financiamentos do próprio banco. A Promotoria investiga se a movimentação serviu para ocultar créditos problemáticos e apresentar uma situação patrimonial diferente da realidade.
O Banco Central também apontou que ajustes nos balanços revelaram uma insuficiência no índice de solvência. O indicador caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação, levando à intervenção e ao início do processo de resolução da instituição.
Quanto dinheiro público estava no banco?
A crise também atingiu órgãos públicos paraguaios que mantinham recursos no Ueno Bank. Segundo informações divulgadas pela Associated Press, o banco concentrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em depósitos públicos. Entre os maiores valores citados está o do Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS), que teria cerca de US$ 380 milhões na instituição, segundo a agência.
A situação preocupa porque o IPS administra recursos destinados a aposentadorias e serviços de saúde. A Agência Nacional de Eletricidade (ANDE) também informou que mantinha valores relacionados a empréstimos de organismos internacionais e recursos próprios no banco.
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O volume exato que cada órgão conseguirá recuperar ainda depende da análise dos contratos, dos saldos e dos ativos disponíveis. Por isso, os valores divulgados precisam ser diferenciados de quantias efetivamente confirmadas como recuperadas.
O Banco Central busca preservar os bens do banco e dos responsáveis pelas operações. A Justiça determinou o bloqueio preventivo de patrimônio de dirigentes e empresas ligadas ao grupo, em uma medida que alcança mais de US$ 70 milhões e 1,6 trilhão de guaranis.
O que acontece com os clientes?
O Ueno Bank atendia aproximadamente 3 milhões de pessoas. Com a intervenção, as operações foram suspensas e os clientes ficaram temporariamente sem acesso a contas e serviços.
O Banco Central anunciou o início dos pagamentos da garantia de depósitos em 5 de novembro. Na primeira etapa, serão atendidos clientes que tenham até 10 milhões de guaranis depositados, não possuam dívidas com a instituição e tenham uma conta habilitada em outro banco ou financeira do Paraguai.
A garantia geral prevista em lei cobre até 75 salários mínimos mensais por pessoa ou empresa em cada instituição financeira, o equivalente a 228,3 milhões de guaranis. Quem tiver valores acima desse limite poderá depender da recuperação de ativos e dos procedimentos de transferência de depósitos e obrigações.
O Banco Central informou que divulgará as próximas etapas pelos canais oficiais. A orientação é que os clientes acompanhem as informações da autoridade monetária e evitem fornecer dados pessoais ou bancários a intermediários não autorizados.
Crise também atingiu o governo paraguaio
O caso provocou uma crise política no Paraguai. O presidente Santiago Peña havia sido acionista da holding ligada ao Ueno até março de 2025. A relação anterior com o grupo controlador aumentou a pressão da oposição, que questionou possíveis conflitos de interesse e a atuação das autoridades na fiscalização do banco.
Em 5 de novembro, Peña anunciou sua renúncia em meio à perda de apoio político e à pressão provocada pela crise. A saída ainda depende dos procedimentos constitucionais para ser efetivada.
O presidente do Banco Central também deixou o cargo em meio aos questionamentos sobre a fiscalização da instituição.
As investigações agora precisam esclarecer quem autorizou os empréstimos, quem se beneficiou das operações, como foram utilizados os recursos públicos e se houve falhas ou omissões na fiscalização. Também será necessário determinar quanto do patrimônio do banco poderá ser recuperado para pagar clientes e instituições públicas.





