Lula tenta reocupar o verde e amarelo em uma disputa que vai além da eleição

A disputa eleitoral de 2026 também está sendo travada em um território que não aparece nas pesquisas de intenção de voto: o das cores. A nova identidade visual apresentada pela campanha de Lula amplia o uso do verde, amarelo e azul, cores da bandeira brasileira, ao lado de uma comunicação que busca apresentar o país como marca central. O movimento acompanha uma estratégia que já vinha aparecendo nos discursos do presidente e em outras peças de comunicação do campo governista.
Não se trata apenas de uma mudança estética. O que está em jogo é a tentativa de alterar uma associação construída nos últimos anos: a de que verde e amarelo, a bandeira nacional e a camisa da Seleção seriam símbolos identificados prioritariamente com a direita.
Em maio, Lula já havia defendido publicamente que a esquerda precisava aprender a usar o verde e amarelo sem permitir que as cores fossem vinculadas exclusivamente a uma corrente política. A disputa ganhou força durante a Copa do Mundo. Enquanto representantes da direita passaram a reivindicar novamente a camisa amarela como símbolo de seu campo político, Lula também apareceu com a camisa da Seleção e passou a defender a presença das cores nacionais na comunicação da esquerda.
A lógica é simples, mas politicamente sofisticada. Se o vermelho identifica imediatamente o PT, o verde e amarelo podem ampliar o campo visual da campanha para além do eleitor tradicional do partido. É uma tentativa de trocar uma identidade partidária por uma identidade nacional.
Uma identidade construída, não nascida
Existe, porém, uma diferença entre apresentar uma cor e conseguir mudar o significado que o eleitor atribui a ela. O verde e o amarelo não nasceram como símbolos de nenhum dos dois campos políticos. São cores oficiais da bandeira brasileira, ao lado do azul e do branco, e o próprio IBGE registra essa composição como parte dos símbolos nacionais.
O que mudou foi a associação política construída nos últimos anos. A partir das manifestações bolsonaristas, a bandeira e a camisa da Seleção passaram a ocupar um espaço importante na identidade visual da direita. A consequência foi curiosa: símbolos que deveriam representar o conjunto dos brasileiros passaram a carregar, para parte do eleitorado, uma identificação política mais específica.
É justamente essa associação que o campo lulista tenta desafiar. O PT chegou a publicar uma defesa explícita da ideia de que o verde e amarelo não pertence à direita. Mas a disputa não será resolvida apenas pela comunicação das campanhas. O ponto central será saber se o eleitor aceita separar o símbolo de sua utilização política recente.
Uma pessoa pode olhar para uma camisa amarela e enxergar simplesmente a Seleção. Outra pode associá-la imediatamente a Bolsonaro. Uma terceira pode enxergar a própria identidade nacional. É nesse espaço de interpretações que a disputa simbólica acontece.
Leia mais
BTG/Nexus: Quem não recebe Bolsa Família dá vantagem a Flávio sobre Lula
Lula venceria Flávio por 47% no 2º turno, aponta BTG/Nexus
Campanhas disputam a ideia de Brasil
A estratégia também aparece fora da campanha presidencial. Em São Paulo, o PT adotou verde, amarelo e azul em materiais de divulgação da pré-campanha de Fernando Haddad, deixando os elementos tradicionais do partido, como o vermelho, em segundo plano. Isso sugere que não se trata apenas de uma escolha pontual de Lula, mas de uma tentativa mais ampla de aproximar a comunicação do campo petista de símbolos capazes de dialogar com um eleitorado maior do que sua base tradicional.
A pergunta, entretanto, permanece aberta: o verde e amarelo podem voltar a ser apenas verde e amarelo? Se a resposta for sim, a estratégia terá conseguido enfraquecer uma associação política construída nos últimos anos. Se a resposta for não, a mudança visual poderá ser percebida apenas como uma tentativa eleitoral de ocupar um território simbólico que continua identificado com o adversário.
Há ainda uma ironia nessa disputa. Quanto mais os dois lados tentam reivindicar a bandeira, a camisa da Seleção e as cores nacionais, mais evidente fica que o objeto da disputa não é apenas uma paleta de cores, mas a definição de quem consegue falar em nome da ideia de Brasil. Em uma eleição marcada novamente pela polarização, talvez seja justamente essa a batalha que as campanhas estejam começando a travar antes mesmo da disputa pelo voto.





