Dividir para dominar: receita criada por Mestrinho é vista novamente neste ano eleitoral

Quando venceu a eleição de 1982, no início da redemocratização do País, Gilberto Mestrinho afirmou que o grupo político dele ficaria no poder por 20 anos e criou uma receita que incluía unir e separar seus aliados para seguir dominando os principais postos do Amazonas.
Eleito com o apoio de políticos como Fábio Lucena, Manoel Ribeiro, Amazonino Mendes, Serafim Corrêa, Arthur Neto, Mario Frota e Carlos Alberto di Carli, e posteriormente as crias destes políticos, como Omar Aziz, Eduardo Braga, Alfredo Nascimento e José Melo, a receita de Mestrinho de separar aliados para seguir no poder foi testada já na sucessão dele em 1996.
Naquela eleição, ele dividiu o grupo dele entre os governistas Amazonino Mendes, então prefeito de Manaus; Lucena (senador) e di Carli (deputado federal), e a turma que disputaria a eleição pela oposição: os deputados federais Arthur Neto, Mario Frota e Serafim.
Dois anos depois, na sucessão de Manoel Ribeiro na Prefeitura de Manaus, novamente o grupo fingiu uma separação para seguir dominando os principais postos. O primeiro movimento de separação foi feito pelo então governador Amazonino Mendes, que decretou uma intervenção na Prefeitura de Manaus, tirou Ribeiro do posto para pavimentar a eleição de Mestrinho, que seria o candidato oficial apadrinhado por ele.
Nos bastidores, contudo, Amazonino operou para que tanto Mestrinho quanto o grupo de “oposição”, liderado por Arthur Neto, Frota e Serafim, chegassem ao poder municipal, batendo um dos ícones da política amazonense e inventor da receita de dividir para dominar.
Mas o melhor exemplo da aplicação da fórmula aconteceu nas eleições de 1990 (Governo do Estado) e 1992 (Prefeitura de Manaus). Em 1990, na sucessão de Amazonino Mendes o candidato oficial foi novamente Mestrinho, com o empresário Francisco Garcia na vice. Essa chapa disputou a eleição contra o médico Wilson Alecrim, aposta do grupo liderado pelo então prefeito de Manaus, Arthur Neto, e o grupo que orbitava no entorno dele. Mario Frota correu por fora nessa disputa. Deu Mestrinho!
Detalhe: para bater o velho aliado, Arthur Neto criou um dos bordões mais famosos da política amazonense: “O passado não volta”, numa referência ao fato de já naquela época Mestrinho já ter governado o Estado por duas vezes, a primeira delas nos anos 50 do século passado.
Na sucessão de Arthur Neto na prefeitura, em 1992, o governador Mestrinho se aliou ao prefeito, que aceitou a “volta do passado” para apoiar a candidatura do então deputado federal José Cardoso Dutra, candidato oficial de ambos, contra o então senador Amazonino Mendes, que trazia de vice na chapa o jovem Eduardo Braga. Deu Amazonino!
Na eleição estadual de 1994, a receita não foi aplicada porque a posição de franco favorito de Amazonino Mendes não justificava o desgaste e todos do grupo de Mestrinho foram acomodados gradualmente. Amazonino se elegeu facilmente contra Nonato Oliveira, então no PDT. Arthur Neto, Francisco Garcia e Mário Frota foram para o Legislativo, Serafim seguiu vereador, Di Carli encerrou o mandato no Senado e saiu da vida pública. Mestrinho concluiu o mandato e só voltaria à vida pública quatro anos depois para ser eleito senador numa disputa voto a voto contra o médico Marcos Barros.
Dos novos integrantes do grupo criado por Mestrinho, Alfredo Nascimento foi vice de Amazonino, Eduardo Braga assumiu a prefeitura (lembrando hoje Renato Junior), Omar e Melo foram para Aleam (Assembleia Legislativa do Amazonas).
Dois anos depois, na eleição municipal de 1996, a velha receita estava de volta. Com Amazonino no governo e Braga encerrando o mandato na Prefeitura de Manaus, o candidato apadrinhado por ambos foi o então vice-governador Alfredo Nascimento, que disputaria a eleição contra outro antigo aliado de Mestrinho, o vereador Serafim Corrêa, que contava com o apoio de Arthur Neto, Frota e a esquerda amazonense representada por PCdoB e PT. Deu Alfredo na cabeça por míseros 2,5 mil votos, um sinal de enfraquecimento da fórmula.
Entre a eleição de 1996 e a de 1998 uma novidade entrou em cena e “bagunçou” a fórmula. A emenda reeleição tirou Braga da fila e Amazonino Mendes disputou a reeleição contra ele, que trouxe Serafim de vice. Amazonino venceu o antigo aliado numa guerra verbal que envolveu até as famílias. O grupo de Mestrinho seguia no poder.
Na vez de Alfredo Nascimento disputar a reeleição, em 2000, Amazonino seguiu com ele e Braga, que havia sido fundamental para a vitória magra do prefeito contra Serafim quatro anos antes, agora era o adversário a ser batido pelo grupo que estava no poder. Foi nessa eleição que Braga, criticando Amazonino, afirmou que a principal missão de Alfredo era levar tucumã descascado para Amazonino, que na época, morava em uma famosa mansão no bairro do Tarumã.
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Fim dos 20 anos e receita revigorada
Os 20 anos que Mestrinho previa ficar no poder com seu grupo político se encerravam na primeira eleição do século XXI, em 2022, quando estava em jogo o fim do mandato de Amazonino Mendes no Governo do Estado. O grupo liderado pelo governador tinha vários nomes novos à disposição para encararem a sucessão dele: Samuel Hanan (então vice-governador), Alfredo Nascimento (então prefeito de Manaus), Omar Aziz, Pauderney Avelino e José Melo, que eram parlamentares.
A oposição, que havia orbitado o nome de Eduardo Braga em 1998 contra a reeleição de Amazonino e em 2000 contra a reeleição de Alfredo na prefeitura, estava de novo à espera do hoje senador para decidir seu rumo. No Senado, o velho Boto Tucuxi, criador da receita, ia tentar um quarto mandato no Governo do Estado e contava com o apoio de Amazonino.
Aplicando a receita, Amazonino inventou que o candidato dele seria o “candidato do sistema”, sinalizando apoio a algum aliado ou mesmo ao velho professor Mestrinho. No final, ele indicou o então oposicionista Eduardo Braga com José Melo disputando como vice na chapa.
A opção por Melo, contudo, não estava pacificada entre a ala mais jovem do “mestrinhismo”. No dia da convenção, no Olímpico Clube, Melo foi rifado da chapa e deu a vaga para Omar Aziz. Disputaram aquela eleição para o governo Braga, Mestrinho e Serafim, que esteve com o hoje senador nas duas últimas eleições (1998 e 2000). Braga venceu no primeiro turno.
No governo Braga aplicou a fórmula Mestrinho à risca na eleição de 2004 para prefeito de Manaus. Ele oficializou apoio à candidatura de Amazonino Mendes, mas nos bastidores costurou para que Serafim fosse o mais votado e impusesse a primeira derrota eleitoral do quatro vezes governador do Estado. Naquela eleição Amazonino experimentou o mesmo veneno que havia servido a Mestrinho em 1988, quando o indicou formalmente para a disputa pela prefeitura, mas in pectore deu corda para a vitória de Arthur Neto.
Na eleição estadual de 2006, quando Braga buscaria a reeleição houve um choque entre a primeira e a segunda geração do “Mestrinhismo”, cujo prazo de validade no poder havia vencido quatro anos antes. Braga bateu Amazonino e Arthur Neto, então um dos mais célebres senadores da República, e se consolidou como novo manda-chuvas da política amazonense.
Desta posição, ele que havia servido o veneno que abateu Amazonino diante de Serafim em 2004, fez em 2008 o inverso. Dificultou como pode a gestão de Serafim e apoiou Amazonino, que bateu o então prefeito, o primeiro político do Amazonas a não conseguir a reeleição para um cargo majoritário.
Em 2010, devido a acomodação entre os membros do mesmo grupo, a receita Mestrinho foi novamente esquecida. Braga saiu candidato ao Senado e deixou Omar no governo, que por sua vez, disputou e ganhou a eleição contra Alfredo Nascimento e Hissa Abraão. Novamente houve acomodação na eleição de 2012 para a prefeitura, pois Omar não foi um grande entusiasta da gestão Amazonino e este desistiu de buscar a reeleição. Resultado: Deu Arthur Neto prefeito de Manaus pela segunda vez, performance que ele repetiria em 2016.
Antes, em 2014, Omar aplicou a fórmula Braga: saiu em abril para disputar uma vaga no Senado e deixou José Melo no poder. O velho professor operou o quanto pode e até passou dos limites legais, conforme a Justiça Eleitoral, para vencer, com apoio de Omar, o senador Eduardo Braga. Ao final todos sabem o que aconteceu com José Melo.
A eleição de Wilson Lima em 2018 e a reeleição em 2022, bem como a eleição do prefeito David Almeida em 2020 e a reeleição em 2024, passou longe da receita de Mestrinho, com vários grupos distintos e até longe dos poderosos de então, tendo a chance de conquistar o poder.
Wilson nunca tinha disputado uma eleição e vinha de um partido pequeno. Apesar de ser deputado estadual, presidido a Aleam e sido governador do Amazonas por escassos 144 dias, David fez a disputa política contra adversários mais robustos e fora da orla de poder, primeiro contra um debilitado Amazonino Mendes (2020) e depois contra o bolsonarismo de Alberto Neto, a influência e poder de Roberto Cidade e a novidade de Amon Mandel.
Fórmula volta à moda em 2026
O processo eleitoral para a sucessão do governador Wilson Lima ainda está em curso, mas já estão no ar vários indícios de que a fórmula criada por Gilberto Mestrinho de dividir o grupo para dominar o poder está de volta.
Para começar tem um mestrinhista de segunda geração liderando as pesquisas, o senador Omar Aziz, depois tem um candidato de oposição pura sendo torpedeado e com muitas dificuldades para manter a candidatura, no caso a empresária Maria do Carmo Seffair.
Maria do Carmo a todo momento é obrigada a dizer que é candidata e não vai desistir. Por último, o grupo que está no poder se dividindo para ganhar, senão no primeiro turno, certamente aliado no segundo turno.
Neste cenário os operadores são o governador Wilson Lima, que recebeu o apoio de David Almeida em 2022, mas não retribuiu em 2024, indicando para enfrentá-lo o presidente da Aleam, Roberto Cidade. Antes, na reeleição de Wilson, David cravou o nome de Tadeu de Souza na vice-governadoria.
Agora o movimento é: Tadeu alia-se a Wilson, assume o governo, disputa a eleição com Cidade de vice, provavelmente contra David Almeida, criador político dele, e ambos mantém o compromisso de apoiar quem for ao segundo turno, com grandes chances de vencer. A vantagem dessa costura é que ambos terão nas mãos as máquinas mais poderosas do Amazonas o governo e a Prefeitura de Manaus.





