Vorcaro pagou R$ 760 mil a ex-chefe do BC por contrato fictício, diz PF

A Polícia Federal aponta que o banqueiro Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, fez pagamentos de até R$ 760 mil ao ex-chefe de supervisão do Banco Central, Belline Santana, por meio de um esquema de contratos que a corporação classifica como fictícios.
A informação veio a público depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de 15 procedimentos relacionados ao Caso Master, na noite de quinta-feira (10), a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.
Relação entre Vorcaro e Belline remonta a 2023
Segundo o relatório da PF, a relação entre Vorcaro e Belline Santana remete a, pelo menos, outubro de 2023, quando o então funcionário do Banco Central entrou em contato com o banqueiro. Ainda naquele mês, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, enviou ao banqueiro uma mensagem com um documento sobre um negócio para “contratação do desenvolvimento de um Estudo Técnico, Econômico e Social”, assinado por Leonardo Augusto Furado Palhares, responsável pela empresa Varajo Consultores.
No dia 20 daquele mês, Belline avisou Vorcaro que poderia considerar o negócio como assinado, e três dias depois sinalizou que havia enviado os documentos assinados. A PF destaca que, em conversa entre Zettel e Vorcaro, foi encontrado o e-mail que Belline teria enviado a Palhares dando o aceite ao negócio. Segundo a corporação, a reação dos dois nas mensagens, “que circo” e “kkkkkkkk”, ratifica que se tratava de uma contratação fictícia. Em 26 de outubro de 2023, Zettel avisou Vorcaro que teria de pagar, naquele dia, a “primeira parcela do Belline”.
Pagamentos seguiram por meio de intermediários
De acordo com a PF, o banqueiro pedia que Zettel tratasse diretamente com Leonardo Palhares para realizar os pagamentos, sendo reembolsado na sequência. Em 22 de dezembro de 2023, Vorcaro orientou Zettel a não utilizar mais uma empresa do próprio cunhado, chamada “Super”, demonstrando preocupação com o vínculo entre os dois.

Seis dias depois, quando Zettel avisou que era dia de pagamento a Belline, Vorcaro questionou, com surpresa, se o valor estava saindo diretamente do banco, ao que recebeu a resposta “não, óbvio que não”. Posteriormente, o banqueiro reforçou que o pagamento não poderia envolver o banco “nem indiretamente”.
As mensagens sobre repasses a Belline se estenderam ao longo de 2024 e 2025, segundo a PF. Em outubro de 2024, Zettel afirmou a Vorcaro que parte do dinheiro enviado a Leonardo Palhares se destinava, na verdade, a Belline, que teria recebido R$ 760 mil. Já em janeiro de 2025, uma lista de pagamentos em aberto enviada por Zettel a Vorcaro associava o nome de Belline a um valor de R$ 750 mil, e uma lista de “despesas fixas mensais” enviada em setembro daquele ano indicava um repasse mensal de R$ 500 mil ao ex-chefe do BC.
Em dezembro de 2024, Vorcaro chegou a enviar mensagem a Ana Claudia Queiroz de Paiva demonstrando preocupação com possível ligação de seu nome à empresa responsável pelo pagamento ao ex-chefe de supervisão do BC.
Segundo o relatório, “Ana Claudia é direta ao dizer que ela faz o pagamento para Leonardo Palhares, e este faz o pagamento a Belline”. Em depoimento citado pela PF, Ana Claudia afirmou: “essa nota eu pago o Palhares pela Super, o Palhares que emite a nota, a gente não paga direto”.
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PF cita viagem à França custeada por Vorcaro
O relatório também destaca que Daniel Vorcaro teria organizado uma viagem de Belline Santana à França em 2025. Segundo a PF, o banqueiro conversou com um contato identificado como “Aurel Gross” sobre a preparação da recepção de um “convidado”, sugerindo um almoço no restaurante Loulou, com visita guiada, e jantar no L’Aperouse. Vorcaro aprovou o plano e enviou o contato de Belline Santana ao interlocutor, revelando que ele seria o convidado.
O banqueiro também pediu que fossem escolhidos bons vinhos e boas comidas nos restaurantes, o que a PF aponta como indicação de que os eventos seriam pagos por ele. A corporação verificou que Belline Santana e a esposa deixaram o Brasil em 9 de setembro de 2025, com destino ao aeroporto Charles de Gaulle, na França, retornando no dia 15 do mesmo mês.
O contexto da crise no STF
A quebra de sigilo que trouxe os novos detalhes a público ocorre em meio à crise institucional que atinge o STF desde o início de setembro, iniciada quando Mendonça retirou o sigilo de parte da investigação do Banco Master em que aparecia o nome do ministro Alexandre de Moraes.
A disputa levou ao afastamento e à posterior reintegração da cúpula da Polícia Federal, culminou na retirada de Moraes da relatoria do inquérito das fake news por decisão de Fachin, e terá novo capítulo na terça-feira (15), quando o plenário do STF deve analisar o relatório da PF sobre a relação entre Moraes e Vorcaro.





