Viver do trabalho manual ainda é um desafio em Manaus

Em meio à aceleração impulsionada pela inteligência artificial, pela produção industrial em larga escala e pela dependência de telas, a capital amazonense abriga trabalhadores de profissões manuais, entre eles costureiras, relojoeiros, pintores, mecânicos e artesãos. Eles mantêm ofícios que exigem habilidade, experiência e conhecimento prático, além de movimentarem a economia local e preservarem tradições transmitidas de geração em geração.
Segundo os trabalhadores ouvidos pela reportagem, a paixão pelo ofício esbarra na falta de recursos para investir em matéria-prima e maquinário, na escassez de renovação da mão de obra e na ausência de apoio à formação técnica. São desafios que colocam em discussão não apenas a continuidade dessas profissões, mas também o valor do conhecimento adquirido na prática em uma sociedade cada vez mais tecnológica.
O pensamento que passa pelas mãos
Para o historiador e pesquisador Otoni Mesquita, em entrevista à Rede Onda Digital, a relação entre o ser humano, o pensamento e a matéria é ancestral e remonta ao período em que o homem moldava a cerâmica, esculpia e pintava nas cavernas.
“O pensamento passa pelas mãos. Essa expressão que tem a ver com a cerâmica, com a escultura e com o aprendizado é que nos leva a contestar grande parte desse conhecimento onde você não tem contato direto com os materiais”, afirma Mesquita.
O historiador aponta que, dos tipos móveis na China e na Europa de Gutenberg à Revolução Industrial do século XVIII, as transformações nos meios de produção mudaram a relação entre o trabalho manual e a fabricação em larga escala. Nesse processo, ele identifica uma tensão entre a produção mecanizada e a sensibilidade de quem domina um ofício. Para ele, há um risco atual:
“A sociedade agora encanta com tudo que é fácil, por uma tendência comodista de menor esforço. (…) Não vejo como que sem esforço você vai adquirir conhecimento. A tendência é apagar. Uma sociedade não será mais rica, mais criativa, desprezando os seus artistas.”
Tradição e família no Centro de Manaus
No Centro da capital, o saber manual sobrevive em famílias inteiras que transformam matéria-prima em arte. A artesã e atacadista local Ana Beatriz Souza, que começou na profissão aos 12 anos e tem 43 anos de atividade, diz que o ofício é a base de seu sustento e de seus parentes.
“Já vem da família mesmo, desde a minha avó, meu avô e assim adiante. Nós mesmos que fabricamos, fornecemos ao mercado aqui, interiorizamos e pra fora também a gente envia”, conta.
Com clientes fiéis de outros estados, Ana Beatriz afirma que consegue reduzir a dependência do mercado local. Ainda assim, a atividade enfrenta dificuldades para a compra de matéria-prima e os efeitos de fatores sazonais. A seca dos rios, por exemplo, reduz o fluxo de turistas e de compradores vindos de municípios do interior.
Ela atribui a permanência no ofício ao afeto:
“O que eu vejo é o amor que eu tenho. Principalmente pelo colar, o tradicional. Isso aqui vai pra todo o Brasil, o mercado Lisboa, toda a parte do Brasil. Então eu amo ver tudo isso daqui, eu não sei ver sem nada. Para mim é motivo de alegria estar aqui trabalhando com amor e carinho.”
Construção civil e manutenção
Fernando Filemon, pintor e profissional de manutenção de 58 anos, com uma década de atuação formal, descreve os obstáculos de quem trabalha manualmente em um mercado que exige cada vez mais recursos e qualidade no acabamento.
Para ele, acompanhar as mudanças depende também da possibilidade de investir em equipamentos.
“A manutenção ela pede muito recurso em vários profissionalismos. E para eu aprender essa parte como profissional, foi no decorrer da vida mesmo, trabalhando, olhando. A gente não nasce aprendendo. (…) Hoje nós estamos na tecnologia, tem materiais avançados que podem te ajudar, mas eu, como profissional, trabalho ainda da maneira antiga por falta de recurso financeiro para comprar um maquinário”, relata.

Filemon também aponta a dificuldade de atrair novos profissionais e a falta de incentivo à formação técnica em Manaus:

“Hoje o profissional está escasso. Os jovens de hoje, além de não se interessar muito, o governo também não dá apoio. É questão de escola profissional para os jovens aprenderem uma pintura. O governo tinha que olhar para mais esse lado. Hoje o mercado exige muito um acabamento fino e exige muito pelo profissional.”
Descartabilidade x Identidade
A realidade desses trabalhadores ajuda a ilustrar um dilema da sociedade atual: como manter atividades que dependem da experiência, da habilidade e do contato direto com os materiais em meio à expansão da produção industrial e das tecnologias digitais? Em Manaus, os relatos mostram que a continuidade dos ofícios também depende de condições concretas, como acesso a equipamentos, recursos para produzir e formação de novos profissionais.
Para o historiador Otoni Mesquita, a expansão da inteligência artificial e da tecnologia levanta questionamentos sobre o espaço do trabalho humano na produção cultural e intelectual. Ele teme que a substituição de atividades por sistemas automatizados comprometa a originalidade de determinadas criações.
“A questão da inteligência artificial, a substituição das profissões, isso vai acontecer. Estão substituindo até artistas, mas com produtos de qualidade inferior, do meu ponto de vista. O texto pode ser traduzido, compilado… mas não vai ter originalidade. Eu não vejo vantagem, não vejo como, sem esforço, você vai adquirir conhecimento.”
Além da qualidade técnica e artística, Mesquita chama atenção para o impacto das tecnologias nas relações entre as pessoas. Para ele, o contato direto, a conversa e a troca de experiências também fazem parte da construção do conhecimento.
“Outro aspecto que eu acho fundamental é a relação interpessoal. Isso enriquece: é o encontro, o olhar, a discussão. Todas essas facilitações de telefone, de mensagem, me deixam extremamente incomodado. Na verdade, é essa sociedade que está sendo construída e eu, de certa forma, me sinto jogado de lado. Eu prefiro discutir com alguém, conversar, pergunta e resposta. Isso diz respeito a uma sociedade onde há relação entre as pessoas, onde as pessoas se relacionam com os objetos e transformam os objetos.”





