Rua Gastronômica terá fios enterrados, mas custo desafia expansão em Manaus

O enterramento da fiação aérea em um trecho de 190 metros da rua Ferreira Pena, no Centro de Manaus, será uma das principais intervenções para transformar a via na primeira Rua Gastronômica da cidade. Além de retirar os cabos dos postes e reduzir a poluição visual, a obra ocorre em meio à regra estadual que prevê a adequação das redes aéreas de energia e telecomunicações no Amazonas.
A intervenção também prevê a preservação das árvores existentes na Ferreira Pena. Segundo o diretor-presidente do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Antônio Peixoto, nenhuma árvore será retirada. A vegetação será incorporada ao projeto paisagístico da nova rua, que deve ser entregue até 15 de novembro, após cerca de 75 dias de obras.
A obrigação de adequação das redes está prevista na Lei Estadual 8.098, de 7 de janeiro de 2026, proposta na Assembleia Legislativa do Amazonas e sancionada pelo então governador Wilson Lima (União Brasil). Pelo texto, concessionárias e prefeituras devem escolher áreas prioritárias para o enterramento da fiação, considerando planejamento urbano, impacto visual e segurança pública.
A medida também passa a ser obrigatória em novos projetos de redes de energia e telecomunicações em áreas ambientalmente sensíveis e de alta densidade populacional.
O custo de uma rede subterrânea
O principal desafio para ampliar a rede subterrânea em Manaus é o custo. Segundo estimativa da antiga concessionária de energia, a Amazonas Energia, em comunicado ao Ministério de Minas e Energia, existem 14 mil quilômetros de fiação de média e baixa tensão em áreas urbanas dos 62 municípios do estado. Metade desse total estaria em Manaus, segundo o levantamento.
No mesmo relatório, a concessionária, hoje rebatizada de Âmbar Energia, após a venda ao grupo J&F, dos irmãos Wesley e Joesley Batista, informou que instalou 940 quilômetros de novas redes de média e baixa tensão em Manaus entre 2019 e setembro de 2023.
O vice-presidente do Implurb, Pedro Paulo Cordeiro, afirmou que substituir toda a fiação aérea de Manaus por rede subterrânea é um trabalho que demanda tempo e recursos que nem a prefeitura nem as concessionárias têm no momento. Segundo ele, o problema começa nos custos elevados e na diversidade de empresas que usam a rede aérea pendurada nos postes da concessionária de energia, já que uma rede subterrânea custa cerca de dez vezes mais que uma rede aérea.
O valor final do investimento que as concessionárias precisariam fazer, não apenas a de distribuição de energia, mas também as operadoras de telefonia e provedores de internet que compartilham os postes, ainda não foi dimensionado.
O comparativo citado por Cordeiro está alinhado a um estudo da Agência Nacional de Energia Elétrica, que também aponta redes subterrâneas custando várias vezes mais que as aéreas, chegando a cerca de dez vezes em determinadas comparações citadas em levantamento de 2025.
Uma conta para dimensionar o problema
Como a extensão exclusiva de Manaus não está disponível de forma consolidada, uma forma de dimensionar o problema é trabalhar com cenários. Se a capital tivesse 3 mil quilômetros de rede a enterrar, uma conta de R$ 1,5 milhão por quilômetro produziria uma estimativa de R$ 4,5 bilhões. Esses números não representam uma previsão oficial, mas cenários matemáticos para mostrar a ordem de grandeza da obra.
O cálculo pode ficar ainda maior porque o aterramento não significa apenas trocar cabos aéreos por cabos no subsolo. A obra envolve abertura de ruas e calçadas, construção de dutos e caixas de passagem, instalação de transformadores e equipamentos de proteção, retirada de postes e recomposição do pavimento. Também seria necessário reorganizar o espaço subterrâneo já ocupado por redes de água, esgoto, telecomunicações e outros serviços.
A dimensão financeira fica mais clara quando comparada ao orçamento municipal. A Lei Orçamentária Anual de Manaus para 2026 prevê aproximadamente R$ 12 bilhões para o município. Assim, um programa hipotético de R$ 7,5 bilhões para enterrar cinco mil quilômetros equivaleria a cerca de 62,5% de todo o orçamento municipal de um ano.
Essa comparação, no entanto, não significa que a prefeitura teria de pagar a conta. A distribuição de energia é um serviço concedido e envolve a concessionária, a Agência Nacional de Energia Elétrica e outros agentes, de modo que o custo de uma eventual conversão de toda a rede não sairia necessariamente dos cofres municipais.
O Amazonas já possui uma referência de investimento em infraestrutura elétrica. Entre 2019 e 2025, a Amazonas Energia informou investimentos de R$ 689 milhões em recursos próprios e R$ 426 milhões da Conta de Consumo de Combustíveis, totalizando R$ 1,115 bilhão no sistema de alta tensão.
No mesmo período, a infraestrutura de alta tensão passou de 390 para 644 quilômetros de linhas, o que mostra a escala: um programa de aterramento de vários bilhões de reais teria dimensão muito superior aos investimentos recentes em expansão da infraestrutura elétrica.
Divisão de custos ainda sem solução
Para o engenheiro Reginaldo Oliveira, que trabalhou na Amazonas Energia, a questão técnica já está resolvida, pois todos os atores que hoje usam postes conhecem e detêm tecnologias que funcionariam bem em redes subterrâneas. Ele aponta, porém, outro problema, a divisão desses custos, já que o mesmo poste que sustenta a fiação de média e baixa tensão também segura os cabos de fibra óptica de um provedor que atende apenas um bairro ou uma região da cidade.
“Como seria essa divisão? Até hoje a Aneel não conseguiu estabelecer quanto estas empresas têm que pagar para as concessionárias de energia, que foram as responsáveis por instalar os postes”, disse Oliveira, lembrando que uma série de audiências públicas foi realizada ao longo de 2025 para tentar solucionar esse problema de financiamento da rede aérea.
A retirada dos postes seria apenas uma das etapas do que Oliveira chama de novo complexo. Os cabos de energia teriam de ser transferidos para galerias ou dutos subterrâneos, o mesmo podendo ocorrer com os cabos de telefonia e internet que hoje utilizam os postes.
Rua Ferreira Pena será fechada para veículos
Na primeira etapa do projeto, a Ferreira Pena terá o asfalto retirado e receberá piso intertravado, conhecido como paver. A obra também prevê mosaicos inspirados em elementos da cultura amazônica, incluindo referências às tramas de palhas indígenas e uma representação da cúpula do Teatro Amazonas no cruzamento com a rua Monsenhor Coutinho.
Após a conclusão, o trecho será fechado definitivamente para veículos e destinado à circulação de pedestres, gastronomia, turismo e valorização do Centro Histórico. A Prefeitura de Manaus afirma que a Ferreira Pena será a primeira de uma série de intervenções para criação de ruas gastronômicas na capital.





