Poeta amazonense destaca a força dos versos para traduzir a vida

A poesia nem sempre está em um livro ou em versos escritos no papel. Ela também pode estar na letra de uma toada, na melodia que emociona o público no Festival de Parintins, nas paisagens amazônicas e até nos detalhes da vida que passam despercebidos na correria do dia a dia. Neste Dia do Poeta, celebrado nesta terça-feira (20), o poeta amazonense Evandro Lobo destaca como a arte transforma sentimentos e experiências em palavras, além de falar sobre os desafios de produzir literatura no Amazonas.
Para Evandro Lobo, a poesia não precisa mudar a realidade para cumprir seu papel. Sua força está em revelar a beleza e os significados que nem sempre são percebidos por todos. “O poeta ou a poesia não transforma. Ele traduz o belo, o fantástico, de tudo que é visto ou não pelo olhar comum”, afirma.
Autor de obras como “Poemas Perfeitos para Levar no Peito” (2023) e do recente “Colírio e Paixão” (2026), Lobo considera que o Amazonas reúne uma riqueza cultural e literária capaz de inspirar novas produções. Ele prepara um livro de poemas sobre a Amazônia, com lançamento previsto até o fim deste ano.
Apesar desse potencial, avalia que a literatura produzida atualmente na região ainda enfrenta dificuldades para conquistar espaço e reconhecimento, enquanto grandes nomes de gerações anteriores, como Thiago de Mello, Luís Bacelar e Aníbal Beça, permanecem como referências.

Parintins e a poesia que também se canta
A poesia não se limita ao que está escrito. Na música, ela ganha ritmo, melodia e interpretação, elementos que também ajudam a construir sentidos e despertar emoções. Essa relação fica evidente nas toadas do Festival Folclórico de Parintins, em que as palavras se unem aos arranjos musicais e à apresentação dos bois para envolver o público e contar histórias ligadas à cultura, à natureza e aos povos da Amazônia.
A discussão ganhou destaque no festival de 2026, quando um jurado atribuiu nota baixa a uma toada sob a justificativa de que a letra era repetitiva demais. Para Evandro Lobo, a repetição é um recurso presente tanto na poesia quanto na música e não deve ser avaliada isoladamente, sem considerar a função que desempenha na composição.
“A repetição é um recurso natural e comum na poesia e na música. Na poesia é anáfora e na música é pra marcar o ritmo, principalmente em toadas”, explica. O poeta também questionou a avaliação feita no festival. “Não sei se a pessoa que considerou repetitivo tinha alguma formação para sustentar tal avaliação.”
Na poesia, a repetição pode reforçar uma ideia, criar musicalidade e dar intensidade a uma imagem ou sentimento. Nas toadas, esse recurso também ajuda a marcar o ritmo, envolver os brincantes e facilitar a participação do público. Por isso, a análise de uma composição musical exige considerar não apenas a letra isolada, mas também a melodia, a interpretação e o efeito que o conjunto provoca em quem escuta.
Os desafios do mercado literário
Evandro Lobo aponta que viver da produção literária no Amazonas é um grande desafio. O principal entrave, segundo ele, é o baixo número de leitores e a falta de estrutura. “Manaus, por exemplo, só tem duas grandes livrarias”, critica. Os altos custos de edição e venda de livros, aliados à baixa procura por e-books, tornam a publicação um processo lento.
Mesmo com prêmios no currículo, como o Prêmio Literário do Governo do Amazonas (2004) e uma honraria da Academia Amazonense de Letras (2012), o autor ressalta a falta de valorização do que é produzido na região. “Falta um espaço maior pro que se produz de bom em poesia no Amazonas e na Amazônia em geral”, resume.
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O papel do poeta
Em um cotidiano cada vez mais acelerado, marcado pelo consumo rápido de informações e pelas interações digitais, Lobo defende que a poesia continua sendo uma forma de observar e compreender o mundo. Para ele, os versos podem expressar sentimentos pessoais, como o amor e a paixão, mas também abordar a dor, a política, a sociedade e as transformações da vida.
“É preciso ouvir e conhecer os poetas da nova geração. E os veteranos também. Eles conseguem traduzir não apenas o amor, a paixão, mas também tudo que existe e insiste aos olhos e à percepção sutil da vida”, declara.
Ao encerrar a entrevista, o poeta recorre aos próprios versos para falar sobre a resistência da arte diante das dificuldades.
“O canto é triste, mas o pássaro resiste”, recita, antes de definir a função do poeta em versos: “Porque aos poetas é dado dom de olhar a dor e ouvir o sorrir da natureza do amor”.




