Para onde vai o jovem amazonense após o ensino médio?

Concluir o ensino médio não significa, necessariamente, entrar na faculdade ou conseguir emprego na área desejada. Para muitos jovens de Manaus, essa etapa envolve necessidade de renda, busca por estabilidade e planos de continuar os estudos. O Polo Industrial de Manaus (PIM) ainda é referência de emprego formal no Amazonas, mas as trajetórias profissionais estão mais diversificadas, com oportunidades no comércio, nos serviços e no trabalho por conta própria.
A experiência de Allan Felipe do Vale Araújo, de 18 anos, ajuda a ilustrar esse cenário. Formado no ensino médio em 2025, ele trabalha desde os 15 anos na mesma empresa e pretende ingressar no ensino superior, mas não conseguiu iniciar o curso neste ano.
“Sempre quis fazer uma faculdade. Não consegui começar esse ano, mas já vou começar, se Deus quiser”, relata.

Allan também tentou uma vaga na indústria, atraído por melhores benefícios. Enviou currículo para uma fábrica, mas não teve retorno: “Tentei mandar currículo para a fábrica em Semp TCL, para ter mais benefícios, mas nunca tive retorno. Mas estou bem conformado com o meu emprego”.
Apesar do interesse no Distrito Industrial, ele avalia que a mudança não seria adequada agora. “Minha vida está uma loucura, então eu tenho que me centrar bem no que eu vou fazer e ajudar na loja onde eu sou empregado”, explica.
O relato reúne três questões comuns a quem sai da escola: a busca pelo primeiro emprego ou por melhores condições, a dificuldade de acesso a certas vagas e o desafio de conciliar trabalho e estudo.
Vestibular e qualificação como planos para o futuro
Aos 15 anos, João Victor Albuquerque, estudante do 1º ano do ensino médio, já começou a se preparar para ingressar no ensino superior. Ele fez a primeira prova do Sistema de Ingresso Seriado (SIS) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), no dia 11, e também se inscreveu para a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O objetivo é cursar Engenharia Civil e construir uma carreira que ofereça estabilidade financeira.
Diferentemente de jovens que precisam dividir o tempo entre trabalho e estudos, João Victor afirma que pode se dedicar à formação escolar. Ele vê essa condição como uma oportunidade para se preparar para o vestibular e buscar melhores perspectivas profissionais para si e para a família.
“Entendo que preciso garantir que minha formação possibilite uma vida melhor para mim e para minha família e, por isso, estou focando nos estudos para passar no vestibular”, relata.
Embora considere o Distrito Industrial uma possibilidade de trabalho, o estudante afirma que pretende priorizar a profissionalização na área que deseja seguir. A escolha reflete uma trajetória em que a entrada no mercado de trabalho não é o objetivo imediato, mas parte de um planejamento que começa ainda durante o ensino médio.
Polo Industrial deixa de ser destino direto
Para o professor doutor Cleiton Maciel Brito, do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a relação entre juventude e trabalho no estado está ligada às transformações econômicas provocadas pela Zona Franca de Manaus.

Segundo ele, nas primeiras décadas do modelo o Polo Industrial era uma perspectiva importante de emprego formal para os jovens. “De 70 até o final dos anos 80, a qualificação fundamental era ter o ensino fundamental. Não era necessário o ensino médio”, explica.
A partir dos anos 1990, de acordo com o professor, aumentaram as exigências de escolaridade e de capacitação, e parte dos custos de formação, antes assumidos pelas empresas, passou a recair sobre os trabalhadores. “Os jovens vão ter, a partir dos anos 90, uma maior barreira de entrada no Polo Industrial de Manaus”, avalia.
Com isso, a indústria deixou de ser a única referência para quem termina a educação básica, e o comércio e o setor de serviços ganharam espaço.
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Comércio e serviços ganham espaço
Segundo Brito, o Polo Industrial continua sendo um grande empregador, com cerca de 100 mil a 120 mil empregos diretos, conforme a estimativa do próprio professor. A diferença está na diversidade de formas de trabalho: além dos empregos industriais, há oportunidades no comércio, nos serviços e em atividades por conta própria, e cresce o trabalho sem vínculo formal, associado ao que ele chama de “uberização”.
“Hoje, o trabalho é muito mais diverso, o setor de serviços é muito forte, o setor de comércio é muito forte”, afirma.
Por isso, o especialista considera que a entrada no Polo Industrial já não é o destino natural de todo jovem que conclui o ensino médio. “Os jovens, quando saem agora do ensino médio, não necessariamente pensam: ‘meu destino, minha trajetória, minha finalidade é ir para a Zona Franca de Manaus ou para o Polo Industrial’. Não é mais isso”, observa.
Muitos jovens passam a considerar o empreendedorismo e o trabalho por conta própria, mas essas alternativas, segundo ele, não significam necessariamente mais estabilidade, sobretudo quando envolvem atividades sem carteira assinada.
Condições econômicas influenciam escolhas
A trajetória após o ensino médio também é marcada pelas condições econômicas e pelas oportunidades de formação disponíveis para cada estudante. A professora de Língua Portuguesa Cínthia Spatola, que atua há mais de 20 anos nas redes pública e particular, observa diferenças entre as perspectivas dos alunos conforme a realidade em que estão inseridos.

Segundo ela, entre estudantes da rede pública, a busca por emprego no comércio ou no Distrito Industrial muitas vezes está ligada à necessidade de contribuir com a renda familiar. Já entre parte dos alunos da rede particular, há mais possibilidades de investir em cursos superiores, preparar-se para profissões específicas ou assumir negócios da família.
“Isso me faz pensar em quanto as condições econômicas influenciam o tempo que cada jovem pode dedicar à própria formação”, afirma a professora.
Para Cínthia, também é importante evitar generalizações sobre a juventude do Amazonas. As oportunidades de quem vive em Manaus não são necessariamente as mesmas dos jovens do interior, e as escolas precisam acompanhar o que acontece com os estudantes depois da conclusão do ensino médio, identificando quem conseguiu emprego, continuou os estudos ou não encontrou nenhuma dessas oportunidades.
Qualificação e incerteza sobre o futuro
Com a mudança no perfil das vagas, a qualificação ganha peso na disputa por oportunidades. Para certas funções industriais, não basta concluir o ensino médio: podem ser exigidos cursos específicos, conhecimentos técnicos e experiência. A tentativa de Allan de conseguir uma vaga em fábrica, sem resposta, mostra essa dificuldade. A necessidade de continuar trabalhando também pode adiar a entrada na universidade ou em cursos de qualificação.
Na avaliação da professora, a formação escolar também precisa estar mais próxima das exigências do mercado de trabalho. Ela considera que, além de estrutura e acesso à tecnologia, os estudantes precisam desenvolver habilidades que possam ser aplicadas tanto na busca por emprego quanto na continuidade dos estudos.
“Como professora de Língua Portuguesa, considero fundamental que o aluno termine o ensino médio sabendo compreender uma orientação, interpretar um texto, escrever com clareza e defender uma ideia”, afirma. Segundo ela, essas competências fazem diferença em entrevistas de emprego, no atendimento ao público e na formação acadêmica.
A educadora também defende que as escolas aproximem os estudantes de empresas e instituições de formação profissional, sem limitar suas perspectivas ao ingresso imediato no mercado de trabalho. Para ela, a escola pública deve preparar os jovens tanto para disputar vagas de emprego quanto para ingressar na universidade, desenvolver pesquisas ou seguir outras carreiras.
Para Brito, as mudanças vão além do acúmulo de diplomas e alteram a maneira como os jovens enxergam o futuro profissional. “Hoje, a situação mudou. O jovem sai do ensino médio não pensando necessariamente numa ideia de carreira. Na verdade, ele não sabe muito se localizar”, afirma.
“O ensino médio é uma etapa para as pessoas imaginarem alternativas de futuro, que muitas vezes elas não sabem qual é”, resume o professor.
Para os jovens que não conseguem entrar imediatamente na universidade ou conquistar uma vaga de emprego, a formação técnica e os cursos de qualificação podem ampliar as possibilidades profissionais. Cínthia Spatola recomenda acompanhar os editais de instituições como o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) e o Instituto Federal do Amazonas (Ifam), que oferecem oportunidades de formação.
A professora orienta que os estudantes identifiquem as áreas com as quais mais se identificam e as habilidades necessárias para seguir nelas. Conhecimentos de informática, comunicação, administração e formação técnica específica podem ajudar na busca por oportunidades, enquanto o jovem continua se preparando para o vestibular.
Ela ressalta, porém, que a qualificação não depende apenas da iniciativa individual. Custos com transporte, falta de acesso à internet e a necessidade de trabalhar podem dificultar a participação em cursos. Por isso, defende que as orientações sobre formação, bolsas e processos seletivos comecem ainda durante a educação básica.
Assim, a pergunta sobre o que acontece com o jovem amazonense depois da escola não tem uma única resposta. Para alguns, o próximo passo é a faculdade; para outros, uma vaga na indústria, a permanência no comércio, um curso técnico ou o trabalho por conta própria.





