Como distinguir quadrilhas, cirandas e danças típicas do Amazonas

Quando chegam as festas de junho, os festivais folclóricos do Amazonas passam a reunir dezenas de manifestações culturais. Para quem acompanha as apresentações, uma dúvida é comum: qual a diferença entre quadrilha, ciranda e as demais danças que ocupam os arraiais e festivais do estado?
Embora façam parte do mesmo calendário junino, cada uma dessas manifestações possui características próprias, com histórias, personagens, músicas e formas de apresentação diferentes. Juntas, elas ajudam a formar um dos cenários culturais mais diversos do país.
Entre as atrações mais populares estão a quadrilha junina, a ciranda e o boi-bumbá, além de diversas danças regionais, nordestinas, indígenas e internacionais que também conquistaram espaço nos festivais amazonenses.
Conhecer as diferenças entre essas manifestações ajuda a entender melhor a riqueza do folclore local, que movimenta artistas, comunidades e o setor da economia criativa durante todo o período das festas juninas.
No Festival Folclórico de Manaus, que ocorre no palco do Centro Cultural Povos da Amazônia, a diversidade das quadrilhas são divididas em quatro categorias: as tradicionais, as cômicas, as alternativas e as de duelo, cada uma com suas características.
Entre as tradicionais a mais famosa é a Brotinhos do Parque 10, que existe há mais de 30 anos. Entre as cômicas, as mais populares são a Mercenários da Roça, Papudinhos na Roça, Pedro e Pedrita (onde homens se vestem de mulher e vice-versa) e a Bixas Loukas, formadas por casais LGBTQIAPN+.

Os grupos folclóricos Hit Dance e Star Hit encenam quadrilhas cuja marca principal é usar outros gêneros musicais e assim entram na categoria de quadrilha alternativa. Já as quadrilhas de duelo tem como principal representantes a Reis do Faroeste.
Em essência, a quadrilha é um folguedo que conta a história de um típico casamento realizado em cidades e comunidades simples do interior do Brasil, com o marcador chamando os brincantes para diversos momentos da cerimonia, como a bença do padre, a saudação aos convidados, a entrada dos padrinhos, a chegada dos noivos e até os riscos de uma ameça: as cobras.
As Cirandas
Outra manifestação que conquistou espaço de destaque no Amazonas é a ciranda. Embora tenha raízes em tradições populares brasileiras, ela desenvolveu características próprias no Estado e se tornou uma das atrações mais aguardadas dos festivais folclóricos.
A tradição das cirandas começou em festivais no município de Tefé, no Médio Solimões, mas ganhou dimensão estadual em Manacapuru, na Região Metropolitana de Manaus. Em Manaus, os grupos de ciranda costumam apresentar espetáculos inspirados em temas amazônicos, com destaque para a floresta, os rios, os povos originários, a fauna e as lendas da região. As apresentações combinam música, dança, teatralidade e grandes formações coreográficas, sempre com destaque para o marcador da ciranda (narrador) e as cirandeiras, sempre ameaçadas pelo Carão, o pássaro da morte.

Em Manaus, a modalidade consolidou uma base de admiradores e mantém forte presença em diversos bairros da capital, contribuindo para ampliar a diversidade artística dos festivais realizados durante o mês de junho.
Danças nacionais e internacionais
Além das quadrilhas e das cirandas, os festivais folclóricos amazonenses também abrem espaço para danças regionais, danças indígenas, danças nordestinas, além de apresentações de danças inpiradas na cultura agrícola do País e danças internacionais. Essa diversidade ajuda a explicar por que o Amazonas possui um dos calendários culturais mais singulares do país.
No Festival Folclórico oficial de Manaus, as danças Nordestinas formam uma categoria das mais disputadas, sendo as de inspirações no cangaço; e no seu principal representante, o “capitão” Virgulino Ferreira da Silva, o ‘Lampião’; as mais esperadas pelo público.
Em geral elas contam a história e as aventuras dos cangaceiros e têm como figura central do folguedo os aliados de Lampião, como o famoso cangaceiro Corisco, o número 2 do bando que aterrorizou o Nordeste no início do século passado.
São exemplos de danças dessa categoria as encenadas pelos grupos Guerreiros do Sertão, Cabras do Capitão Corisco, Bandoleiros do Sertão, Cabras do Capitão Cabeleira, Cabras do Capitão Meia Noite, Lampião Rei do Sertão e Cangaceiros do Vale Perdido.
Outra dança Nordestina muito popular no festival e nos arraiáis de bairro é a encenada pelo grupo Xameguinho do Xote, que valoriza este ritmo específico da região, assim como a Gang Axé Ostentação, dedicada a ritmo baiano difundido pela cantora Daniela Mercury.
Por fim, também invadem os bairros, festivais de Manaus as danças de inspirações indígenas sendo a principal delas a Dança do Cacetinho, onde os brincantes lutam usando pequenos pedaços de pau (cacetes) numa coreografia que vai ganhando rapidez e fazendo mais barulho e impondo riscos aos mesmos.

A Dança do Tipiti também tem destaque neste período, pois coloca à prova a habilidade dos brincantes de tecer e depois desfiar, por diversas vezes e formando diferentes desenhos, num mastro central uma teia de panos coloridos. Já a Dança do Café e a Dança do Cacau têm como roteiro a vida rural do agricultor brasileiro, colocando em destaque culturas agrícolas forte em nosso País.

Na categoria das danças internacionais típicas do ciclo junino em Manaus são também famosas as apresentações de dança do Ventre, originária de países árabes e trazida para a capital pelos migrantes sírio-libaneses; as de inspirações portuguesas, como a encenada pelo grupo Rancho Luso Brasileiro, e mais recentemente a Jai Ho, uma dança que ficou famosa por ser encenada no filme indiano “Quem quer ser um milionário” com música do grupo Pussycat Dolls.
Enfim, enquanto em outras regiões as festas juninas permanecem concentradas principalmente nas tradições do interior nordestino, no Amazonas elas se transformaram em um encontro de diferentes matrizes culturais. A quadrilha representa a herança junina brasileira; a ciranda expressa a criatividade dos festivais populares amazonenses; e o boi-bumbá, simbolo maior deste período, sintetiza a identidade cultural da Amazônia.
Juntas, essas manifestações fazem de junho não apenas um mês de festas, mas um período de afirmação da memória, das tradições e da diversidade cultural de um estado que transformou o folclore em uma de suas principais marcas.





