Fumaça sufoca rotina de quem precisa trabalhar por conta própria em Manaus

A fumaça das queimadas que encobre Manaus não afeta apenas a qualidade do ar. Para quem depende do trabalho diário para sustentar a família, respirar esse ar poluído significa enfrentar também o medo de adoecer, a perda de renda e a dificuldade de interromper a rotina. Sem a possibilidade de simplesmente deixar de trabalhar, autônomos precisam conciliar os riscos à saúde com a necessidade de garantir o sustento de casa.
A Onda Digital conversou com trabalhadores autônomos de Manaus que enfrentam diariamente a fumaça para entender como a poluição tem afetado a saúde, a rotina profissional e o orçamento familiar. Nos relatos, a preocupação com os sintomas respiratórios se mistura à falta de alternativas para quem precisa sair de casa para ganhar dinheiro.
Edivânia de Sousa conta que a fumaça já provocou mal-estar entre pessoas que trabalham na mesma região. Mesmo diante dos riscos, ela afirma que não pode interromper as atividades porque é responsável pelo sustento da família.
“A gente que trabalha diariamente, a fumaça tá afetando a gente. Já teve gente passando mal aqui por causa da fumaça, afeta todo mundo. E tenho que continuar trabalhando, sou eu que sustento a casa, a minha família”, relatou.
A necessidade de continuar trabalhando também se soma à dificuldade de arcar com medidas de proteção. A aposentada Francineide Magalhães relata que começou a apresentar tosse e que está passando mal por causa da fumaça. Ela também demonstra preocupação com os riscos para idosos e crianças e afirma que não tem dinheiro para comprar uma máscara de proteção.
“Peguei até uma tosse, estou passando muito mal por essa fumaça. Tá horrível, e os idosos podem ficar doentes por causa disso. Deve ter criança morrendo por causa dessa fumaça. Eu devia usar máscara, mas não tenho dinheiro pra comprar”, disse.
Francineide afirma ainda que cuida do neto autista, e acaba priorizando comprar remédios à criança em vez de máscara de proteção. “Até no hospital eu já fui com ele por causa dessa fumaça e eles não tomam nenhuma providência, os deputados”.
Além dos efeitos sobre a saúde, a fumaça também interfere diretamente na renda de trabalhadores que dependem da prestação de serviços. O taxista Claudio Leite transporta estudantes pela manhã e relata que a suspensão das aulas reduziu a demanda pelo seu trabalho.
“Eu trabalho transportando estudantes pela manhã, e tô perdendo serviço porque não tem aula, por causa da fumaça, que é muita fumaça. Chegam aviões, não sei o quê, e a fumaça continua. Meus alunos precisam estudar e não conseguem. Além disso, vivo com nariz entupido”, afirmou.
O taxista lembra que nos últimos dias choveu na capital, resultando em uma pequena trégua na qualidade do ar de Manaus, que permeneceu por dias consecutivos ocupando o ranking de pior qualidade entre as capitais do país.
“Mas é isso aí, a vida continua e a gente tem que estar por aqui mesmo. [A fumaça] não vai acabar agora, não choveu desde ontem, melhorou só aquele pouquinho. Se tivesse dado uma sequência de chuva, hoje, amanhã, aí iria melhorar”, lamenta.
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Os relatos mostram que os efeitos da fumaça vão além do desconforto respiratório: atingem também o orçamento de famílias que dependem da renda diária e têm pouca margem para interromper o trabalho ou gastar com proteção. Para esses trabalhadores, a exposição à poluição se torna mais um desafio em uma rotina marcada pela necessidade de garantir o sustento.
Orientações para a população
A Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) alerta a população para a necessidade de redobrar os cuidados com a saúde durante o período de estiagem e queimadas. A recomendação é reduzir a exposição à fumaça, especialmente entre crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes, que estão mais vulneráveis aos efeitos da poluição.
- Evitar ambientes externos quando houver muita fumaça no ar;
- Manter portas e janelas fechadas nos períodos de maior concentração de fumaça;
- Exercícios ao ar livre também devem ser evitados nos dias de fumaça, em especial aqueles que aumentam a frequência respiratória, como caminhada, corrida e ciclismo;
- Beber água regularmente para manter as vias respiratórias bem hidratadas;
- Não coçar os olhos;
- Usar máscaras de proteção N95;
- Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes, como asma e bronquite, são os mais vulneráveis. Esses grupos precisam ter cuidados redobrados;
- Buscar unidade básica de saúde em caso de necessidade.
Aulas suspensas e atendimentos hospitalares
Os impactos da fumaça também atingem a rotina de estudantes e famílias e pressionam os serviços de saúde. Apesar da leve melhora na qualidade do ar nos dois dias anteriores à divulgação dos dados, as aulas da rede estadual de ensino seguem suspensas na capital e no interior do Amazonas.
Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), a rede pública hospitalar registrou 82 atendimentos de urgência relacionados à fumaça das queimadas apenas na primeira semana de outubro. Entre os sintomas relatados estão falta de ar, tosse, irritação ou dor de garganta, dor de cabeça, dor no peito, náuseas, vômitos, tontura e fadiga.
Para quem trabalha exposto à fumaça, os alertas de saúde esbarram em uma dificuldade concreta: nem todos conseguem reduzir a exposição sem comprometer a própria renda.





