ES – Nossa Senhora Aparecida: a fé que nasce no colo de uma mãe e atravessa gerações

Há sentimentos que não se explicam. Passam de uma geração para outra, aprendidos no silêncio de uma oração, nas mãos de uma mãe que ensina a rezar ou no terço segurado durante os momentos mais difíceis da vida.
Para milhões de brasileiros, Nossa Senhora Aparecida é assim.
Mais do que uma imagem, uma festa ou uma tradição religiosa, a Padroeira do Brasil ocupa um lugar íntimo na história de quem aprendeu a recorrer a Maria quando faltavam palavras, forças ou respostas.
Em Manaus, essa devoção também se revela em histórias como a de Maria de Jesus, da Comunidade São João Batista, na Cidade Nova. A relação dela com Nossa Senhora Aparecida começou ainda na infância, pelas mãos da própria mãe.
“Aprendi com a minha mãe a rezar, a me consagrar e a pedir a sua intercessão junto a Jesus.”
Foi uma fé ensinada dentro de casa e que ganhou novos caminhos quando Maria chegou a Manaus. Ela começou a frequentar as novenas no Santuário de Nossa Senhora Aparecida e, com o passar do tempo, continuou sua caminhada comunitária como Legionária de Maria.
Mas foi diante da doença da mãe que essa devoção ganhou uma dimensão ainda mais profunda.

Quando a oração segura a mão
A mãe de Maria ficou enferma por mais de três anos. A doença a deixou bastante debilitada, mas não conseguiu afastá-la completamente daquilo que lhe dava força.
Enquanto pôde, ela continuou indo às celebrações.
Quando já não conseguia mais sair de casa, a oração foi até ela.
Acamada, continuou rezando o terço. E permaneceu com ele nas mãos até a sua páscoa.
A lembrança ainda carrega a força de uma despedida, mas também a serenidade de quem encontrou na fé uma maneira de permanecer firme.
“Foi para mim uma experiência profunda de oração, fé e devoção a Nossa Senhora Aparecida”, recorda Maria.
Talvez por isso ela diga que a fé não precisa de explicação.
“A fé não se explica, se vive, amadurece.”
E, quando fala de Nossa Senhora, Maria não fala apenas da mãe que partiu. Fala também da própria caminhada, das dificuldades e da confiança que continua levando consigo.
“A exemplo de Nossa Senhora, rezo e peço a seu Filho Jesus: ‘Faça-se em mim segundo a sua vontade’.”
São palavras que atravessam séculos porque carregam uma experiência humana que continua atual: a de não saber o que virá, mas escolher confiar.

A mulher que disse sim
Para o padre José Amarildo Luciano da Silva, pároco da Paróquia Santuário Nossa Senhora Aparecida, missionário redentorista, sacerdote e professor da Faculdade Católica do Amazonas, a grandeza de Maria está justamente na sua relação com Jesus.
“Todo o nosso carinho por Nossa Senhora é por causa de Jesus.”
O sacerdote explica que, na tradição católica, Maria é venerada, mas não adorada. Ela é humana, mulher e criatura. Sua importância está no “sim” que deu a Deus.
“O único título que ela atribuiu a si mesma foi o título de serva: ‘Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’.”
É esse “sim” que, para o padre, explica tantos dos títulos atribuídos a Maria.
“Nós a chamamos de Senhora, e só chamamos de Senhora por causa do Filho, porque Ele é o Senhor. Nós chamamos de Rainha porque ela é mãe do Rei.”
Maria, portanto, não aponta para si mesma.
Ela aponta para Jesus.
E talvez seja justamente por isso que sua figura tenha conseguido permanecer tão próxima da vida cotidiana de quem sofre.
Uma imagem negra entre os esquecidos
A história de Nossa Senhora Aparecida também nasceu em um Brasil marcado pela escravidão e pela exclusão.
A imagem negra foi encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, em São Paulo, em 1717.
Para o padre Amarildo, esse detalhe não pode ser separado da mensagem de acolhimento associada à Padroeira.
“A imagem não é Maria, a imagem é um símbolo, um símbolo que nos recorda a sua fidelidade, mas também a sua proximidade.”
A pequena imagem encontrada nas águas passou a representar, para gerações de brasileiros, uma mãe próxima de um povo que tantas vezes enfrenta abandono, preconceito e sofrimento.
“Maria é a mãe do povo de Deus, Maria é a mãe dos discípulos do seu Filho, Maria é a mãe daqueles que são deixados à margem.”
E existe, nessa imagem negra, uma mensagem que permanece especialmente atual.
“Ela vem até nós na sua imagem negra, talvez para nos recordar que não devemos excluir ninguém, por nenhuma razão, muito menos por uma questão de raça.”
O ensinamento, segundo o sacerdote, não termina na devoção.
Ele precisa chegar à maneira como as pessoas olham umas para as outras.
Em uma sociedade ainda marcada por preconceitos, intolerância e radicalismos, Nossa Senhora Aparecida seria, para ele, um convite à acolhida.
“Hoje, quando nós ainda temos tanto preconceito, de várias formas, muito radicalismo, muitas pessoas intolerantes, Nossa Senhora Aparecida nos ensina a olhar para todo mundo com o olhar de respeito e de acolhida e não de julgamento.”
E então vem uma das imagens mais bonitas deixadas pelo sacerdote:
“Tudo que vem de Deus é sempre de acolhida e de inclusão. A porta não se fecha para ninguém. A porta está sempre aberta.”
A mãe que permanece
No Santuário Estadual de Nossa Senhora Aparecida, a devoção também é lembrada pelo frei Taylon como uma experiência que ultrapassa a própria celebração religiosa.
Maria, segundo ele, é a mulher que acolhe a Palavra de Deus e a apresenta à comunidade.
“Maria é a primeira mulher que acolhe a palavra de Deus e, por meio dela, ela gera a palavra, ela apresenta a palavra para a comunidade.”
Por isso, sua mensagem permanece viva em uma frase que atravessou gerações:
“Fazei o que ele vos disser.”
É uma orientação que coloca Maria novamente no papel de quem aponta para o Filho, mas que também pode ser entendida como um chamado à confiança.
Para quem chega diante de Aparecida carregando uma doença, uma perda, uma preocupação ou simplesmente o peso da vida, talvez seja isso que a devoção ofereça: a sensação de não caminhar sozinho.
“Que Maria Santíssima, nossa Mãe Aparecida, possa ser a mulher mensageira que leva a palavra até você e ajude você a caminhar em muitas dificuldades de sua vida”, afirma frei Taylon.
Para o frater Taylon, a devoção a Nossa Senhora Aparecida também carrega uma mensagem de esperança para quem enfrenta sofrimento, preconceito e exclusão. Segundo ele, a imagem negra da Padroeira, encontrada em 1717, remete a um período em que a população negra era vítima da escravidão e ajuda a lembrar a importância da dignidade humana.
“Não é somente celebrar a memória ou o encontro de Nossa Senhora Aparecida, mas é celebrar a dignidade humana, é celebrar a dignidade da mulher, é celebrar a dignidade de pessoas que são excluídas pela sociedade”, afirma.
Neste ano, o novenário tem como tema “Com Maria e em comunidade, conhecer e praticar a Palavra”. Para Taylon, Maria é exemplo de quem acolhe a Palavra de Deus e a compartilha com os outros. Sua mensagem, segundo ele, continua sendo um convite à fé e à perseverança, especialmente nos momentos difíceis.
“Que Maria Santíssima, nossa Mãe Aparecida, possa ser a mulher mensageira que leva a palavra até você e ajude você a caminhar em muitas dificuldades de sua vida”, deseja o frater.
Onde a esperança encontra lugar
Talvez seja por isso que a devoção à Padroeira do Brasil atravesse gerações.
Uma criança aprende a rezar com a mãe.
Uma filha acompanha a mãe durante uma doença.
Um terço permanece entre as mãos de uma mulher até os últimos momentos.
E, depois da despedida, aquela oração continua sendo repetida por quem ficou.
A história de Maria de Jesus é também a história de tantas famílias que encontraram na fé uma maneira de enfrentar aquilo que não podiam controlar.
Nossa Senhora Aparecida permanece, assim, como símbolo de uma fé que não promete que a vida será sem sofrimento.
Mas lembra que ninguém precisa atravessá-lo sozinho.
É a mãe ensinada pela mãe.
É a oração que permanece quando as palavras acabam.
É o terço segurado entre os dedos.
É a esperança que resiste.
E é a certeza de Maria de Jesus de que, diante de tudo aquilo que a vida coloca no caminho, ainda é possível repetir, com fé:
“Faça-se em mim segundo a sua vontade.”





