Entenda por que produtos da Amazônia precisam sair da região para ganhar valor

A Amazônia tem uma produção diversificada de matérias-primas, como cacau, pescado, mel e outros produtos da sociobiodiversidade. O problema é que boa parte do valor econômico gerado por esses produtos não permanece na região.
Em muitos casos, a matéria-prima deixa os municípios produtores sem passar por etapas de beneficiamento ou industrialização. O processamento ocorre em outras regiões, onde o produto ganha valor de mercado e maior rentabilidade.
O “Custo Amazônia”
Para o especialista em inovação Abrahim Baze, a raiz do problema é histórica. A região foi inserida na economia global como fornecedora de matéria-prima bruta desde o ciclo da borracha, e mudar essa lógica esbarra em obstáculos estruturais que ele resume como “Custo Amazônia”: “distâncias continentais, infraestrutura de energia elétrica instável, e cara, no interior, e a distância dos grandes centros consumidores”, o que encarece o frete de produtos acabados ou semiacabados.

Baze aponta a logística como o maior gargalo. “O escoamento depende de rios, que sofrem com secas extremas, como vimos recentemente, e estradas precárias”, diz.
Segundo ele, “transportar um produto beneficiado, que muitas vezes exige refrigeração ou cuidado com embalagem, é muito mais complexo do que transportar a matéria-prima bruta.”
A isso somam-se a falta de “infraestrutura básica de processamento” e energia de qualidade no interior, um crédito que “é burocrático e não se adapta à realidade da posse de terra ou da sazonalidade amazônica”, e a ausência de “programas de capacitação técnica avançada no interior”.
Mesmo assim, para Baze, a inovação tecnológica é o caminho para transformar commodity em produto de maior valor.
Distância entre produto, produtor e mercado
O Centro de Bionegócios da Amazônia, o CBA, sucessor do antigo Centro de Biotecnologia da Amazônia, é apontado pelo governo do Amazonas como uma das respostas institucionais a esse problema. Mas, segundo a própria gestão do centro, a distância entre o que existe no papel e o que chega ao produtor ainda é grande.
Leia mais
CBA promove empreendedorismo e conhecimento de startups para povos indígenas
Terras indígenas mantêm desmatamento zero em 60% dos territórios na Amazônia
Fabiana Rocha, gestora do Espaço CBA de Inovação, diz que o centro “possui infraestrutura laboratorial, planta piloto industrial e competência técnica” para desenvolver produtos como “óleos, farinhas, extratos, ingredientes, concentrados” a partir da biodiversidade amazônica. Mas faz questão de separar duas coisas: “É importante diferenciar capacidade tecnológica de tecnologia efetivamente transferida e operando comercialmente.”
Segundo ela, o CBA “já realizou diferentes ensaios, desenvolvimento, validação, em escala laboratorial e piloto“, mas “nem todas essas soluções se convertem em processos produtivos contínuos em comunidades”.

Os principais entraves na travessia entre o piloto e a escala industrial, segundo ela, são “a irregularidade no fornecimento e na qualidade da matéria-prima”, a dificuldade de “acessar organização produtiva e gestão de cooperativas”, “a ausência de capital de giro”, a necessidade de “licenciamento sanitário ambiental” e “a falta de assistência técnica, principalmente nos municípios”, de forma continuada.
“Uma tecnologia pode funcionar no laboratório, na planta piloto, mas não alcançar a escala se não tiver acompanhamento, governança, assistência técnica, financiamento, regularização, inteligência de mercado e, no final, compradores”, resume.
E mesmo as parcerias que o centro tem com instituições como Embrapa, Sebrae e INPA, hoje, são mais científicas do que capazes de levar tecnologia até a ponta. “Não podemos confundir colaboração científica com programas permanentes de extensão tecnológica de forma sistemática, principalmente quando você quer chegar a produtores ribeirinhos e agricultores familiares. Esse ainda é um ponto que precisa ser fortalecido”, diz.





