El Niño pode levar rios da Amazônia a repetir calor extremo e mortandade de botos

O fortalecimento do El Niño coloca a fauna aquática da Amazônia novamente diante de um cenário de alerta. O fenômeno climático pode contribuir para períodos de estiagem mais severos, queda no nível dos rios e aumento das temperaturas, uma combinação que já provocou uma mortandade de botos e peixes durante a seca extrema de 2023.
A preocupação agora é que um novo período de calor intenso e vazante dos rios possa produzir condições semelhantes ou até mais severas para os animais que dependem dos ambientes aquáticos da região.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño está se fortalecendo e há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno se torne muito forte nos próximos meses.
Na Amazônia, o fenômeno está associado a períodos de menor chuva e redução dos níveis dos rios. Quando a água diminui, o problema não é apenas a falta de espaço: a temperatura pode subir e a quantidade de oxigênio disponível na água pode cair, aumentando o estresse sobre os animais.
O que aconteceu em 2023
O alerta tem como principal referência a seca histórica de 2023.
No Lago Tefé, no Médio Solimões, pesquisadores começaram a encontrar botos-vermelhos e tucuxis mortos em setembro daquele ano. A situação se agravou durante a estiagem e atingiu números sem precedentes.
Dados do Instituto Mamirauá apontam que 209 animais foram encontrados mortos durante a seca de 2023, sendo 178 botos-vermelhos.
Em um dos pontos mais críticos do Lago Tefé, a temperatura da água chegou a 39,1°C no dia 28 de setembro. A temperatura considerada normal para o lago era de aproximadamente 30°C. Naquele dia, 70 animais foram encontrados mortos.
Na época, pesquisadores apontaram o calor extremo e a seca como fatores associados à mortandade. As condições da água, especialmente as temperaturas muito elevadas, foram consideradas críticas para os botos e tucuxis.
Rios mais baixos, água mais quente
A preocupação para 2026 está justamente na possibilidade de uma nova combinação de fatores extremos.
Com a redução das chuvas, os rios e lagos perdem volume. A menor quantidade de água facilita o aquecimento dos ambientes aquáticos e pode diminuir a concentração de oxigênio.
Para os peixes, isso representa uma situação de estresse que pode aumentar a mortalidade. Para os botos, que precisam subir à superfície para respirar, a alteração do ambiente também pode comprometer a disponibilidade de alimento e modificar os locais onde conseguem se deslocar.
O problema pode ser ainda maior em lagos, áreas de várzea e outros ambientes onde a água fica mais isolada e pode aquecer rapidamente.
Calor já chama atenção em Manaus
O alerta climático chega enquanto a Amazônia já apresenta registros de calor e baixa umidade.
Em 31 de agosto, Manaus chegou a 37,3°C, maior temperatura registrada na cidade naquele ano até então, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Em 10 de agosto, a umidade relativa do ar chegou a 41%, também o menor índice do ano naquele momento.
A combinação preocupa porque o impacto sobre a fauna não depende apenas da temperatura do ar. O calor também interfere na temperatura da água, enquanto a estiagem reduz o volume dos ambientes aquáticos.
Novo episódio não significa repetição automática
A previsão de um El Niño forte não significa que a mortandade de 2023 necessariamente vai se repetir.
O que os dados indicam é que existe uma condição climática capaz de aumentar os riscos para os ecossistemas amazônicos. A intensidade da seca, o volume de chuvas, a temperatura dos rios e lagos e outros fatores atmosféricos vão determinar como a fauna será afetada.
Por isso, o monitoramento dos rios e dos animais ganha importância nos próximos meses.
O sinal de alerta já está dado pelo que aconteceu recentemente. Em 2023, a combinação de seca extrema e calor levou a uma crise ambiental no Lago Tefé, com centenas de botos encontrados mortos. Agora, com um novo El Niño em fortalecimento, pesquisadores e órgãos ambientais terão de acompanhar de perto se a Amazônia voltará a enfrentar condições semelhantes.





