Vazamento de gás em Manaus exige cuidados com água e alimentos, alerta especialista

O vazamento de gás no Distrito Industrial, zona Sul de Manaus nessa quarta-feira (15), pode ter consequências que vão além do cheiro forte sentido por moradores e trabalhadores da região. Especialistas alertam que partículas provenientes do incidente podem se depositar sobre folhas, frutos e reservatórios de água, exigindo cuidados extras da população.
A orientação é reforçar a higienização de alimentos, evitar o consumo de água armazenada em recipientes destampados e acompanhar as recomendações das autoridades até que a situação seja completamente normalizada.
O alerta é do engenheiro ambiental e pesquisador Alan Ferreira, que explica que a vegetação funciona como um filtro natural para poluentes presentes na atmosfera. “O papel dos fragmentos florestais urbanos e das florestas rurais é justamente esse: absorver todo e qualquer tipo de poluente”, disse.
Segundo ele, dependendo das características do gás liberado, parte do material pode permanecer suspensa no ar e, sob determinadas condições de temperatura, transformar-se em partículas capazes de aderir às superfícies.
“Talvez seja um poluente volátil que se dispersou e, com a temperatura em que ele se encontra, se transforma em pequenas partículas e começa a se alojar nas folhas, nos galhos, nos frutos, entre outros”, explicou.
O pesquisador destaca que a preocupação é ainda maior neste período do ano, quando frutas como o jambo estão em abundância na capital. “A gente precisa avaliar, lavar bem esse fruto, assim como outros que a gente vai ingerir agora, nesses próximos dias”, disse.
Alan Ferreira também chamou atenção para outro possível ponto de exposição, a água armazenada em reservatórios abertos. “Manaus tem muitas caixas d’água sem tampas, poços tubulares sem tampas, e essa partícula volátil está se alojando”, alertou.
Como ainda não há informações sobre o volume total de gás liberado, o pesquisador defende a adoção do princípio da precaução. “A gente precisa se preocupar, porque a gente não sabe ainda qual a quantidade de gás vazado, para entender qual a quantidade de partículas voláteis foram produzidas ou podem ser produzidas”, disse.
Entre as recomendações estão a limpeza de reservatórios e a higienização reforçada dos alimentos. “Quem tem tanque sem tampa, o melhor conselho é descartar a água, lavar o reservatório e reabastecer depois. Frutas, verduras e outros alimentos precisam ser bem lavados. Nesses primeiros dias, quase cinco dias, a gente precisa ter bastante atenção”, disse.
Trabalhadores voltam a ser retirados
As recomendações foram feitas um dia após o vazamento, quando o reservatório voltou a expelir gás. O forte odor fez com que trabalhadores de várias empresas próximas fossem retirados novamente de seus postos. Funcionários relataram sintomas como dor de cabeça, náuseas e irritação. Vídeos registrados por trabalhadores mostram a saída de funcionários da empresa Elgin durante a nova ocorrência.
Trabalhadores do Distrito Industrial relatam forte odor ao deixar empresa
Na mesma manhã, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti) liberou servidores para atuar em home office, já que o cheiro persistia no prédio, e o atendimento ficou restrito à portaria. O Pronto Atendimento ao Cidadão (PAC) Studio 5 também suspendeu os atendimentos por medida preventiva.
Monitoramento mostra pico isolado
Enquanto o odor continuava sendo percebido na região, o monitoramento do Projeto Selva, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrou qualidade do ar considerada boa na maior parte de Manaus, com índices de material particulado fino (MP2.5) variando entre 4,3 e 9,5 µg/m³.
Entretanto, um dos sensores registrou um pico de 5.480,9 µg/m³, valor extremamente acima dos demais pontos monitorados. O dado é isolado e deve ser interpretado com cautela, pois o sistema mede partículas finas em suspensão, e não a concentração de gases. Ainda assim, a leitura reforça a necessidade de monitoramento contínuo das condições ambientais após o acidente.

Ipaam aguarda relatório da empresa
O diretor-presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Gustavo Picanço, informou que técnicos do órgão atuam desde os primeiros momentos da ocorrência, em conjunto com o Corpo de Bombeiros.
“No ato do conhecimento do sinistro, os engenheiros químicos e os analistas do Ipaam fizeram um trabalho em conjunto com o Corpo de Bombeiros, avaliando a área”, disse.
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Segundo ele, a prioridade é reduzir os impactos ambientais e proteger a população. “Nossa atividade principal é controlar e minimizar todos os impactos que podem ser causados ao meio ambiente e à saúde”, disse.
Picanço afirmou que a empresa responsável deverá apresentar um relatório técnico ao Ipaam em até 48 horas. Somente após a análise desse documento, o instituto decidirá sobre eventuais medidas administrativas. “Assim que a empresa apresentar o relatório, a gente vai tomar as medidas administrativas cabíveis dentro do órgão”, informou.
Enquanto as investigações prosseguem, especialistas recomendam que moradores da região afetada mantenham atenção às orientações das autoridades, reforcem os cuidados com a água e os alimentos e procurem atendimento médico caso apresentem sintomas persistentes, como dor de cabeça, tontura, náuseas ou irritação respiratória.





