Amazonas se prepara para novo El Niño, mas medidas não atacam origem da crise, diz pesquisador

O Governo do Amazonas começou a antecipar ações para enfrentar a possibilidade de um novo e forte El Niño ainda em 2026. O plano busca reduzir os impactos de uma eventual seca severa sobre a população, evitando os problemas registrados nos últimos anos, quando a estiagem comprometeu o abastecimento, isolou comunidades e prejudicou a navegação nos rios.
Para o pesquisador Lucas Ferrante, no entanto, as medidas anunciadas são importantes do ponto de vista emergencial, mas não enfrentam as causas que tornam esses eventos cada vez mais frequentes e severos.
Plano prevê ações antecipadas para minimizar impactos
Entre as medidas anunciadas pelo governo estão o envio antecipado de água, alimentos e combustível para regiões consideradas mais vulneráveis, além do mapeamento dos municípios com maior risco de serem atingidos pela estiagem.
Segundo o Estado, aproximadamente 600 mil pessoas podem ser impactadas pela redução do nível dos rios em 19 municípios localizados nas calhas dos rios Madeira, Purus e Juruá.
O plano também prevê o reforço do monitoramento climático, a ampliação da estrutura de resposta a emergências, a atuação integrada com as prefeituras e a busca por apoio do governo federal para reduzir os efeitos da seca.
Outra frente anunciada é a tentativa de garantir a navegabilidade do rio Madeira, uma das principais rotas logísticas do Amazonas. Para isso, o governo solicitou ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) a realização de uma dragagem preventiva com o objetivo de evitar prejuízos ao abastecimento do estado e ao Polo Industrial de Manaus.
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Especialista defende medidas estruturais
O pesquisador Lucas Ferrante, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador com atuação voltada às mudanças climáticas, conservação da Amazônia e políticas ambientais, avalia que o planejamento apresentado pelo governo é necessário para reduzir os efeitos imediatos da estiagem, mas insuficiente para enfrentar os fatores que ampliam os impactos das secas na região.
“O plano anunciado pelo Governo do Amazonas é importante do ponto de vista emergencial, mas ainda é insuficiente porque atua principalmente sobre as consequências da seca, e não sobre suas causas estruturais. Antecipar cestas, água, combustível, cadastro populacional e apoio logístico é necessário, mas isso apenas posterga uma crise que tende a se repetir e se agravar ano após ano se o estado continuar permitindo o avanço do desmatamento, da grilagem, das queimadas e do garimpo”, afirma.
Segundo Ferrante, uma estratégia permanente deveria priorizar políticas de desmatamento zero, fortalecer o combate preventivo às queimadas, enfrentar a grilagem de terras e o garimpo ilegal e ampliar a atuação conjunta com órgãos federais, como Ibama e Polícia Federal, antes do agravamento da estiagem.
Na avaliação do pesquisador, a fumaça que atingiu Manaus em 2023 demonstrou que os efeitos das queimadas associadas ao desmatamento ultrapassam as áreas de floresta e afetam diretamente a saúde da população urbana, ribeirinha e indígena.
“O plano ideal deveria começar por uma política efetiva de desmatamento zero, revisão dos recentes decretos estaduais de regularização fundiária que fragilizam a proteção ambiental, combate preventivo aos focos de incêndio e acionamento antecipado do Ibama, da Polícia Federal e de outros órgãos federais antes que a estiagem se consolide. O El Niño intensifica a seca, reduz o nível dos rios e favorece incêndios florestais, mas seus impactos são agravados por decisões humanas”, defende.
Dragagem não substitui governança ambiental, diz pesquisador
Ferrante também questiona a dragagem do rio Madeira como solução isolada para garantir a navegabilidade durante a estiagem. Segundo ele, a medida pode aliviar os impactos imediatos, mas não resolve os processos ambientais que contribuem para o assoreamento dos rios.
“Também não basta propor dragagem no rio Madeira como solução isolada. Sem combater o garimpo e a degradação ambiental que favorecem assoreamento, bancos de areia e perda de navegabilidade, a dragagem vira uma medida paliativa: tenta resolver temporariamente um problema que o próprio modelo de ocupação continua produzindo. Rodovia não substitui rio, e dragagem não substitui governança ambiental. Para proteger os ribeirinhos, é preciso garantir navegabilidade, abastecimento e assistência, mas também enfrentar desmatamento, queimadas, garimpo e grilagem antes que a seca se transforme novamente em calamidade”, conclui.
Com a memória ainda recente das secas históricas de 2023 e 2024, a possibilidade de um novo El Niño reacende o debate sobre a necessidade de combinar ações emergenciais de resposta com políticas permanentes voltadas à proteção ambiental e à prevenção dos impactos das futuras estiagens.





